quinta-feira, 4 de outubro de 2007

O assassinato mais profundo

Assassinato mais profundo: é aquele que é um modo de relação, que é um modo de nos vermos e nos sermos e nos termos, assassinato onde não há vítima nem algoz, mas uma ligação de ferocidade mútua. Minha luta primária pela vida. “Perdida no inferno abrasador de um canyon uma mulher luta desesperadamente pela vida.”

Lispector
Uma Paixão segundo G.H

terça-feira, 2 de outubro de 2007

Mas eu estava no deserto

Acordei de súbito do inesperado oásis verde onde por um momento eu me refugiaria toda plena.
Mas eu estava no deserto. E não é só no ápice de um oásis que é agora: agora também é deserto, e pleno. Era já. Pela primeira vez na minha vida tratava-se plenamente agora. Esta era a maior brutalidade que eu jamais recebera.
Pois a atualidade não tem esperança, e a atualidade não tem futuro: o futuro será exatamente de novo uma atualidade.
Eu estava tão assustada que ainda mais quieta ficara dentro de mim. Pois parecia-me que finalmente eu ia ter que sentir.
Parece que vou ter que desistir de tudo o que deixo atrás dos portões. E sei, eu sabia, que se atravessasse os portões que estão sempre abertos, entraria no seio da natureza.
Eu sabia que entrar não é pecado. Mas é arriscado como morrer. Assim como se morre sem se saber para onde, e esta é a maior coragem de um corpo.
Lispector
A Paixão Segundo G.H

segunda-feira, 1 de outubro de 2007

A descoberta do Mundo

Se o meu mundo não fosse humano,
também haveria lugar para mim:
eu seria uma mancha difusa de instintos,
doçuras e ferocidades,
uma trêmula irradiação de paz e luta:
se o mundo não fosse humano eu me arranjaria sendo um bicho.
Por um instante então desprezo o lado humano da vida
e experimento a silenciosa alma da vida animal.
É bom, é verdadeiro, ela é a semente do que depois se torna humano.

Lispector