terça-feira, 4 de março de 2008

Espiritos Livres

Um passo adiante na convalescença: e o espírito livre se aproxima novamente à vida, lentamente, sem dúvida, e relutante, seu tanto desconfiado. Em sua volta há mais calor, mais dourado talvez; sentimento e simpatia se tornam profundos, todos os ventos tépidos passam sobre ele. É como se apenas hoje tivesse olhos para o que é próximo. Admira-se e fica em silêncio: onde estava então? Essas coisas vizinhas e próximas: como lhe parecem mudadas! De que magia e plumagem se revestiram! Ele olha agradecido para trás – agradecido a suas andanças, a sua dureza e alienação de si, a seus olhares distantes e vôos de pássaro em frias alturas. Como foi bom não ter ficado “em casa”, “sob seu teto” como um delicado e embotado inútil! Ele estava fora de si: não há dúvida. Somente agora vê a si mesmo, e que surpresas não encontra! Que arrepios inusitados! Que felicidade mesmo no cansaço, na velha doença, nas recaídas do convalescente! Como lhe agrada estar quieto a sofrer, tecer paciência, jazer ao sol! Quem, como ele, compreende a felicidade do inverno, as manchas de sol no muro? São os mais agradecidos animais do mundo, e também os mais modestos, esses convalescentes e lagartos que de novo voltam para a vida: - há entre eles os que não os deixam passar o dia sem lhe pregar um hino de louvor à orla do manto que se vai. E, falando seriamente: é uma cura radical para todo pessimismo(o câncer dos velhos idealistas e heróis da mentira, como se sabe-)ficar doente à maneira desses espíritos livres, permanecer doente por um bom período e depois, durante muito mais tempo, durante muito tempo tornar-se sadio, quero dizer, “mais sadio”. Há sabedoria nisso, sabedoria de vida, em receitar para si mesmo a saúde em pequenas doses e muito lentamente.
Frederico o incompreendido!

Desejo


Já descobriu a cara que tem um desejo?
São de traços ansiosos - irrequietos,
Tem a face de uma manhã de primavera
correndo no regato que
Floresce os jardins dos ímpetos.
Um movimento inestancável das cores de uma natureza precisa,
Cujas almas inquietas transbordam como champagne,
Tendo por companhia o fruto de seu próprio desejo.
E como não se embriagar em suas taças?
Depois de embeber lábios em sua saliva,

finalmente se compreende o que os gregos sugerem vir do Olimpo.
Subversiva!
Efervescem bocas ao primeiro toque,
Saltam olhares no encanto de suas linhas,
agarram-nos pelo pescoço a cada sorriso...
Não quero perdão pelos desejos não realizados.
Quero o risco não calculado de desejar,
e desejar tanto quanto for possível.
A tua beleza é um veneno no qual meu vício se contrai,
seus mistérios são a pele que as unhas se agarram
por suas verdades de um amor não absurdo.
Um amor existencial,
aquele que nasce num olhar e morre num piscar,
mas ainda assim,
um amor.