"porque a verdadeira poética não é uma coisa sistemática.nem um sentimento absurdo"
http://mendesferreira.blogspot.com/
domingo, 24 de junho de 2007
sábado, 23 de junho de 2007
Intraduzível
Os abraços são intraduzíveis,
por mais cores e formas que se possa pintá-los,
não é possível descrever seus efeitos.
A combinação dos abraços com beijos mais
tempero de pele e vontade;
Inviabiliza que qualquer linguagem
seja suficiente
para traduzir o desencadeamento
de ondas eletroquímicas
que violentamente inundam a rede sensorial
varrendo enlouquecidamente
em rebentações extasiantes
o sistema geral do indivíduo
que experiencia dessa fonte.
Mas é necessária
uma coincidência quase genética
na compatibilidade dos corpos envolvidos
para elevar o prazer ao avesso,
é preciso que sejam combustíveis
simbioticamente lascivos
para que este fenômeno
desenvolva-se em sua plenitude.
Neste ponto a saliva alucina todos os desejos
e os lábios brincam soltos a procura de textura eriçada,
temperatura -
liquefação cutânea ...
por mais cores e formas que se possa pintá-los,
não é possível descrever seus efeitos.
A combinação dos abraços com beijos mais
tempero de pele e vontade;
Inviabiliza que qualquer linguagem
seja suficiente
para traduzir o desencadeamento
de ondas eletroquímicas
que violentamente inundam a rede sensorial
varrendo enlouquecidamente
em rebentações extasiantes
o sistema geral do indivíduo
que experiencia dessa fonte.
Mas é necessária
uma coincidência quase genética
na compatibilidade dos corpos envolvidos
para elevar o prazer ao avesso,
é preciso que sejam combustíveis
simbioticamente lascivos
para que este fenômeno
desenvolva-se em sua plenitude.
Neste ponto a saliva alucina todos os desejos
e os lábios brincam soltos a procura de textura eriçada,
temperatura -
liquefação cutânea ...
Libertate
Liberdade é por definição
experienciar os sentidos sem rédeas,
começar quantas vezes desejar,
ir e voltar para si,
tomar posse de sua totalidade.
Desatar nós,
reduzir à cinzas as condições,
doutrinas e vontade alheia.
É a Revolução da alma sobre mazelas humanas,
Páginas viradas de um livro em branco.
Ser livre é viver as coisas fundamentais com a seriedade das crianças,
o prazer > os sentimentos > as pessoas - lugares e suas revelações.
Descobrir a si próprio!
Abrir os braços contra o vento,
pairar sobre si e apossar de todos os desejos,
expressá-los sem culpa,
sem medo,
sem vergonha!
Permitir, reinventar,
renovar velhas novas amizades,
inventar o que sentir...
...sentir o que quiser!
Mudar de opinião
Trocar de paixão,
b.e.i.j.a.r a.t.é o.s o.l.h.i.n.h.o.s m.u.d.a.r.e.m d.e c.o.r.
sentir sem pensar, sem razão!
Ser livre é sobretudo,
estar bem acompanhado de si
Bastar-se e seguir em frente.
Viver sem prestar contas,
não agradar - não se importar,
Contradizer e tornar a dizer,
quantas vezes convir...
Dançar no quarto;
...cantando para uma multidão imaginária
de dentro do seu espelho...
...Viver sem culpa,
ainda que não tenha razão,
pois não existe razão em ter razão.
Voar alto sem pouso certo,
sem especulações,
sem sofrimento antecipado,
de olhos bem abertos!
sem rumo, sem altura,
de portas abertas e janelas secretas.
Viajar sem destino,
Cantar sem motivo,
estrada sem fim...
De alma lavada
sorrindo
para mim!
segunda-feira, 18 de junho de 2007
para além dos dias mortos

Para além dos dias,
pela costa após a serra,
um mar para além dos mares.
Praias solitárias, pedras duras,
reflexões corrosivas.
Promessas escritas em areia,
apagadas antes mesmo do sol se pôr.
Para trás só restaram lembranças,
dos dias que aconteceram e morreram,
dos dias de sol e chuva,
dos lábios molhados e dos escândalos de pele.
Tudo ainda vive como seu cheiro,
doente tempero, preciso como espelho.
Aglutinação lasciva de poros eriçados,
sincronizados aos estímulos,
estufando pele como espinhos.
Grito silencioso de corpo em erupção.
Onde foi que nos perdemos?
Vou agora para além dos dias mortos,
para todo o sempre, noutra morada, aos mesmos prazeres.
pela costa após a serra,
um mar para além dos mares.
Praias solitárias, pedras duras,
reflexões corrosivas.
Promessas escritas em areia,
apagadas antes mesmo do sol se pôr.
Para trás só restaram lembranças,
dos dias que aconteceram e morreram,
dos dias de sol e chuva,
dos lábios molhados e dos escândalos de pele.
Tudo ainda vive como seu cheiro,
doente tempero, preciso como espelho.
Aglutinação lasciva de poros eriçados,
sincronizados aos estímulos,
estufando pele como espinhos.
Grito silencioso de corpo em erupção.
Onde foi que nos perdemos?
Vou agora para além dos dias mortos,
para todo o sempre, noutra morada, aos mesmos prazeres.
Minguante

Numa tempestade de insights dou luz a uma criança que jamais fora concebida, a terra treme procurando se acomodar, tufões arrastam com fúria o excesso, a natureza se apodera desse ser.
Este que luta e reluta contra si mesmo, contra as estreitezas da alma que vagueia na escuridão de suas dúvidas, que chora a impossibilidade de sua cura, que se embebeda de luz sem ascender.
Procura, não encontra, corre e se cansa, aos berros mira atenção, mas o eco do descaso é cruel. Absorto em dor, sente o próprio corpo minguar, como lua no seu quarto equivalente em tormenta, ferro e fogo.
Questiono se sobrevive, se é medíocre, se dor é real, se o mal está ou veio a ele, se é pura fraqueza ou desvio de atenção intensificado num momento de vulnerabilidade.
Quantas faces roçaram, quantos lábios bebeu, quantos perfumes tragou, quanto calor sentiu. Porque somente este lhe falta, lhe foge, lhe mata!
Procurou tesouros maiores, lugares mais calmos e a comparou com todos os paraísos que aportou, ainda assim como louco se desfaz em pedaços ...Sempre teve medo do mar, é traiçoeiro. Finge-se de calmo, mas te engole, é lindo mas aniquila, e se não mata te joga contra as pedras, frias e duras amigas incrustadas de cracas e ouriços que só estão ali porque existem e não tem o direito de ser o mar, por isso quer deformar... Mas se fosse pescador, o temeria tanto? Se soubesse ler suas ondas e correntezas, seria preciso? Pessoa imortalizou: Navegar é preciso, viver não é preciso. Transforme necessidade em precisão e precisamente chegue à conclusão.
Este que luta e reluta contra si mesmo, contra as estreitezas da alma que vagueia na escuridão de suas dúvidas, que chora a impossibilidade de sua cura, que se embebeda de luz sem ascender.
Procura, não encontra, corre e se cansa, aos berros mira atenção, mas o eco do descaso é cruel. Absorto em dor, sente o próprio corpo minguar, como lua no seu quarto equivalente em tormenta, ferro e fogo.
Questiono se sobrevive, se é medíocre, se dor é real, se o mal está ou veio a ele, se é pura fraqueza ou desvio de atenção intensificado num momento de vulnerabilidade.
Quantas faces roçaram, quantos lábios bebeu, quantos perfumes tragou, quanto calor sentiu. Porque somente este lhe falta, lhe foge, lhe mata!
Procurou tesouros maiores, lugares mais calmos e a comparou com todos os paraísos que aportou, ainda assim como louco se desfaz em pedaços ...Sempre teve medo do mar, é traiçoeiro. Finge-se de calmo, mas te engole, é lindo mas aniquila, e se não mata te joga contra as pedras, frias e duras amigas incrustadas de cracas e ouriços que só estão ali porque existem e não tem o direito de ser o mar, por isso quer deformar... Mas se fosse pescador, o temeria tanto? Se soubesse ler suas ondas e correntezas, seria preciso? Pessoa imortalizou: Navegar é preciso, viver não é preciso. Transforme necessidade em precisão e precisamente chegue à conclusão.
quinta-feira, 14 de junho de 2007
Escreva o que quiser

Escreva o que quiser, pegue um punhado de palavras e atire ao céu, tome chuva de frases e onde escorrer, estará no lugar certo. Se preferir jogue-as contra o ventilador, quando mais novo adorava fazer isso com cadernos dos outros, agora só faço nos meus. Pode-se também encher um tanque ou piscina – o que dispor, encha-os de maneira a transbordar quando decidir mergulhar. Atreva-se, dispa-se, get your thoughts naked! Escandalize ou tranqüilize, mas destile.
Dance com as palavras ao som que melhor lhe estimular, dance como se ninguém estivesse olhando, libertação espiritual lisérgica. Feche os olhos e permita acontecer, a permissão é a chave de tudo, não a permissão que deixa qualquer coisa passar, mas a seletiva. Seja bonito, ou seja horrível, mas seja genuinamente você, não o que os outros esperam que seja. Deixe as regras para cães adestrados, não estrangule sua fonte criativa com limitações mundanas, projete-se! Leve suas idéias a praia, sua imaginação precisa de sol. Cante, não murmure, a não ser que sejas ondas, caso contrário, cante! Liberte-se, solte a voz das profundezas de seu poço encantado e deixe o mundo inteiro ouvir, ainda que desafine.
Siga em frente, mesmo que tenha que atravessar paredes, se puder transpor uma, será capaz de realizar qualquer coisa, creia! Converse muito com pessoas interessantes, escute, não existe maior aprendizado do que numa boa conversa. O meio transforma os seres, seja você a transformação do seu meio.
Livre-se das velhas coisas, das antigas perturbações, faça novas melhores amizades, escute novos ritmos, assista filmes cuja compreensão necessite algo além da alfabetização, não beba pouco, nem muito, somente o suficiente. Os copos dizem mais que muitos livros, mas o vinho, ah...! O vinho guarda mais sabedoria do que todas universidades. Coma muito e bem, não se permita morrer sem experimentar as cozinhas do mundo, especialmente a francesa. Faça o roteiro, direção e produção. Escreva abertamente, seja honesto consigo, assuma riscos e quando encontrar alguma coisa boa, cuide bem! Sobretudo, sempre tenha caneta e papel a mão, as palavras não chegam com hora marcada...
quarta-feira, 13 de junho de 2007
Num dia de Sol Estradeiro

Num dia de sol estradeiro, sigo a sina de caminhar, com o peso das sombras a aturdir, o caminho que por ora escolhi. Homem de pé no chão, carrega as pedras nas palmas marcadas, é vermelha, é escura, como a visão que tenho do mundo. Bate o vento as costas empurrando ao destino marcado com X maiúsculo, hasteado em bandeira alta para todos olhos enxergarem. Se acaso consentir, que chegue você também ao mesmo ponto. De lá partiremos para outro, como sempre acontece com os ventos e suas direções, indo de lugar em lugar, ora parando, ora ventando, mas sempre mudando, sempre chegando noutro lugar. Se por acaso a noite chegar com seu manto curioso de céu infinito, suba no monte mais alto, procure a estrela mais cintilante e aguarde por cantigas deste boêmio, que a acolherá como um terroir vigorosamente fértil, que produz das mais doces uvas o mais fino vinho, assim poderei lhe tomar em taças sem vergonha, sobre mesa sem velas, num quarto sem paredes, numa noite sem fim...
quinta-feira, 7 de junho de 2007
Há em nós Exploradores e Explorados

Há em nós exploradores e explorados, que disputam entre si o poder que exercem sobre nós. Comandam nossas inclinações, receios, expressam força de vontade e a falta dela. Por vezes somos explorados por dúvidas e repressões desencontradas sobre assuntos ordinários, mas na maior parte do tempo, deve-se reinar um espírito natural, explorador sensorial, uma vontade incontida de expressão superior, que em harmonia conduz sentimentos e impulsos a realização de seus desejos sem tomar conhecimento das distrações.
Só se deve reprimir desejo, caso este condicione a invasão de alma alheia, interfira no livre arbítrio de outro ser, para todas outras coisas de espírito é preciso ser honesto até a dureza.*
Só se deve reprimir desejo, caso este condicione a invasão de alma alheia, interfira no livre arbítrio de outro ser, para todas outras coisas de espírito é preciso ser honesto até a dureza.*
No amor ou em nome dele, é muito comum o erro da exigência de retribuição afetiva. Não se pode exigir ser amado, a pretensão mais inconveniente a que, só os doentes do ego são vulneráveis. Cegos de olhos sadios! Flagelam-se em desespero agarrados a verdades de mão única, a razões indivisíveis, ao egoísmo idiotizado...Quem sofre desse mal, desconhece o amor, nunca o foi revelado. Um está sempre errado, mas com dois, começa a surgir a verdade. Um não consegue provar o seu caso, mas dois são irrefutáveis.*
O amor é uma transmutação físico química que enleva dois seres a cobertura da alma, onde a vida escorre por ambos sem percepção de espaço tempo, sem buscar razões, bastam-se a si próprios, tornando-se até mais leves que o ar, certamente pela alta temperatura que se alcança. Mas como o amor não se revela em palavras, os egoístas sempre serão cegos arrastando fardos de sofrimento buscando seus culpados.
O amor é uma transmutação físico química que enleva dois seres a cobertura da alma, onde a vida escorre por ambos sem percepção de espaço tempo, sem buscar razões, bastam-se a si próprios, tornando-se até mais leves que o ar, certamente pela alta temperatura que se alcança. Mas como o amor não se revela em palavras, os egoístas sempre serão cegos arrastando fardos de sofrimento buscando seus culpados.
*As citações em itálico são nietzscheanas.
terça-feira, 5 de junho de 2007
Pensar

No martírio dos pensamentos, me perco entre sucessivas invasões que ocorrem entre a inacabada confusa consciência, e meu visionário sublime inconsciente. Abandonando o consciente, num assalto súbito de clarividência, contemplo a manifestação para toda verdade. Em desvio de espírito, tudo se perde ao tentar procurar explicação. É rara a libertação da condição consciente para contemplação da beleza de qualquer coisa que se revele, sem julgamentos. A grande maioria só roça o inconsciente através dos sonhos, a sina de um mundo demasiadamente racional. Virar os olhos para dentro não é tarefa para essa embrutecida cultura.
Vita feminina
Ver as últimas belezas de uma obra, por maiores que sejam a nossa ciência e a nossa boa vontade, é a tarefa para a qual elas não poderão bastar; são ainda necessários os mais felizes acasos, as coincidências mais raras, para afastar dos altos dos cumes o véu das nuvens e fazer brilhar o sol sobre eles. Para distinguir este quadro, não podes contentar em estar no bom lugar: é preciso que a própria alma se tenha despojado também do véu das suas próprias alturas e que sinta a necessidade de uma expressão, de um símbolo exterior, para conhecer uma espécie de paragem, para ficar senhora de si própria. Mas tudo isso se encontra tão raramente reunido que estou muito tentado em crer que os mais altos cimos de toda a perfeição, quer sejam numa obra, numa ação, num homem, ou na natureza, estiveram escondidos até aqui, velado nos olhos da maior parte, mesmo dos melhores... e aquilo que se nos desvenda, só se desvenda uma vez!Os Gregos pediam “duas e três vezes a beleza total”...É que tinham, ai de mim, uma excelente razão para assim se dirigirem aos deuses: a realidade, não divina, recusa-nos o belo ou só nos dá uma vez! Considero que o mundo, repleto de belas coisas, é, contudo, pobre, extremamente pobre em belos instantes e em revelações destas coisas. Mas talvez que seja esse o maior encanto da vida: carrega consigo, bordado a ouro, um véu prometedor, defensivo, púdico, trocista, complacente e tentador de belas possibilidades. A vida certamente, é uma mulher!
Friedrich Nietzsche
segunda-feira, 4 de junho de 2007
A consciência

A consciência é a última fase da evolução do sistema orgânico, por conseqüência também é aquilo que há de menos acabado e de menos forte no sistema. É do consciente que provém uma multidão de enganos que fazem com que um animal, um homem, pareçam mais cedo do que seria necessário, “a despeito do destino”, como dizia Homero. Se o laço dos instintos, este laço conservador, não fosse de tal modo mais poderoso do que a consciência, se não desempenhasse, no conjunto, um papel regulador, a humanidade sucumbiria fatalmente sob o peso dos juízos absurdos, das suas divagações, da sua frivolidade, da sua credulidade, numa palavra do seu consciente: ou antes, há muito tempo que teria deixado de existir sem ele! Enquanto uma função não está madura, enquanto não atingiu o seu desenvolvimento perfeito, é perigosa para o organismo: é uma grande sorte que ela seja bem tiranizada! A consciência é-o severamente, e não é ao orgulho que o deve menos. Pensa-se que o orgulho forma o núcleo do ser humano; que é seu elemento duradouro, eterno, supremo, primordial! Considera-se que o consciente, é uma constante! Nega-se o seu crescimento, as suas intermitências! É considerado como “ a unidade do organismo”! Sobrestima-se, desconhece-se, ridiculamente, aquilo que teve consciência eminentemente útil de impedir o homem de realizar o seu desenvolvimento com demasiada rapidez. Julgando possuir consciência, os homens pouco se esforçaram por a adquirir; e ainda hoje estão nisso! Trata-se ainda de uma tarefa eminentemente atual, que o olho humano começa apenas a entrever, a de se incorporar o saber, de o tornar instintivo no homem; uma tarefa de que só se dão conta aqueles que não compreenderam que até aqui o homem só incorporou o erro, que toda nossa consciência se relaciona com ele.
Genialidade suprema de Friedrich Nietzsche - Gaia Ciência, 1882 > Milênios a frente da humanidade atual
Quando a Erva Crescer
Quando a erva crescer em cima da minha sepultura, Seja este o sinal para me esquecerem de todo. A Natureza nunca se recorda, e por isso é bela. E se tiverem a necessidade doentia de "interpretar" a erva verde sobre a minha sepultura, Digam que eu continuo a verdecer e a ser natural.
Alberto Caeiro
Alberto Caeiro
Assim Como
Assim como falham as palavras quando querem exprimir qualquer pensamento, Assim falham os pensamentos quando querem exprimir qualquer realidade, Mas, como a realidade pensada não é a dita mas a pensada. Assim a mesma dita realidade existe, não o ser pensada. Assim tudo o que existe, simplesmente existe. O resto é uma espécie de sono que temos, infância da doença. Uma velhice que nos acompanha desde a infância da doença.
Alberto Caeiro
Alberto Caeiro
Não Basta
Não basta abrir a janela Para ver os campos e o rio. Não é bastante não ser cego Para ver as árvores e as flores. É preciso também não ter filosofia nenhuma. Com filosofia não há árvores: há idéias apenas. Há só cada um de nós, como uma cave. Há só uma janela fechada, e todo o mundo lá fora; E um sonho do que se poderia ver se a janela se abrisse, Que nunca é o que se vê quando se abre a janela.
Alberto Caeiro
Alberto Caeiro
domingo, 3 de junho de 2007
Verdade dos Olhos

Algumas verdades só vêm a superfície através dos olhos,
da boca saem todas as coisas, mas só olhos dizem a verdade,
pelo bem ou pelo mal.
Então...
olhe nos meus olhos,
quero mergulhar em sua verdade e agarrá-la como se a vida dependesse dela.
E se a verdade for chuva,
quero ser o rio, o curso e o mar onde a chuva é acolhida.
Derrama a verdade por essas águas,
inunde as meas verdades, transborde luz!
Liberte um escravo de sua escuridão,
mire nos meus olhos...
Se Eu Morrer Novo
Se eu morrer novo, Sem poder publicar livro nenhum, Sem ver a cara que têm os meus versos em letra impressa, Peço que, se se quiserem ralar por minha causa, Que não se ralem. Se assim aconteceu, assim está certo.
Mesmo que os meus versos nunca sejam impressos, Eles lá terão a sua beleza, se forem belos. Mas eles não podem ser belos e ficar por imprimir, Porque as raízes podem estar debaixo da terra Mas as flores florescem ao ar livre e à vista. Tem que ser assim por força. Nada o pode impedir.
Se eu morrer muito novo, oiçam isto: Nunca fui senão uma criança que brincava. Fui gentio como o sol e a água, De uma religião universal que só os homens não têm. Fui feliz porque não pedi cousa nenhuma, Nem procurei achar nada, Nem achei que houvesse mais explicação Que a palavra explicação não ter sentido nenhum.
Não desejei senão estar ao sol ou à chuva — Ao sol quando havia sol E à chuva quando estava chovendo (E nunca a outra cousa), Sentir calor e frio e vento, E não ir mais longe.
Uma vez amei, julguei que me amariam, Mas não fui amado. Não fui amado pela única grande razão — Porque não tinha que ser.
Consolei-me voltando ao sol e à chuva, E sentando-me outra vez à porta de casa. Os campos, afinal, não são tão verdes para os que são amados Como para os que o não são. Sentir é estar distraído.
Alberto Caeiro
Mesmo que os meus versos nunca sejam impressos, Eles lá terão a sua beleza, se forem belos. Mas eles não podem ser belos e ficar por imprimir, Porque as raízes podem estar debaixo da terra Mas as flores florescem ao ar livre e à vista. Tem que ser assim por força. Nada o pode impedir.
Se eu morrer muito novo, oiçam isto: Nunca fui senão uma criança que brincava. Fui gentio como o sol e a água, De uma religião universal que só os homens não têm. Fui feliz porque não pedi cousa nenhuma, Nem procurei achar nada, Nem achei que houvesse mais explicação Que a palavra explicação não ter sentido nenhum.
Não desejei senão estar ao sol ou à chuva — Ao sol quando havia sol E à chuva quando estava chovendo (E nunca a outra cousa), Sentir calor e frio e vento, E não ir mais longe.
Uma vez amei, julguei que me amariam, Mas não fui amado. Não fui amado pela única grande razão — Porque não tinha que ser.
Consolei-me voltando ao sol e à chuva, E sentando-me outra vez à porta de casa. Os campos, afinal, não são tão verdes para os que são amados Como para os que o não são. Sentir é estar distraído.
Alberto Caeiro
sábado, 2 de junho de 2007
Se toda estrada fosse poeria
Se toda estrada fosse poeira, meus pés seriam emborrachados, como coisa que criasse aderência. E nas montanhas venceria todas as horas o descompasso de meus contratempos. Pra trás deixaria toda melancolia de meus pesares, e numa arena me atiraria a dançar só desejando contemplar os belos domingos de sol. Apenas meus botões me compreendem, então os deixo soltos a me esculpir...
Só minha alma sabe o que é preciso para caminhar...só meus botões me desenham o que sou de verdade, porque sou o mais profundo desejo, a expressão mais ampla de minha vontade, a inclinação da diversão sem culpa, a vida sem alardes!
Só minha alma sabe o que é preciso para caminhar...só meus botões me desenham o que sou de verdade, porque sou o mais profundo desejo, a expressão mais ampla de minha vontade, a inclinação da diversão sem culpa, a vida sem alardes!
Libertação

Libertar dos pensamentos
e entregar cegamente às sensações
até tornar-se os próprios sentidos,
febril, latente, pungente, em fratura exposta,
somente... sentindo.
De todos os males da humanidade,
De todos os males da humanidade,
pensar é o mais vulgar e presunçoso de nossas funções. Estrangula e banaliza as formas d’alma.
Os pensamentos concebem paixões póstumas,
Os pensamentos concebem paixões póstumas,
aleija os impulsos,
secam os desejos até nos tornar desertos de si próprio.
Contemplar instintivamente a vida é soltar-se no outono, degustar o inverno, florescer na plenitude da primavera e despir-se no verão.
Contemplar instintivamente a vida é soltar-se no outono, degustar o inverno, florescer na plenitude da primavera e despir-se no verão.
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