sábado, 17 de novembro de 2007

Eclipse


A consciência,
responsável por toda certeza de nossas verdades.
(Leia-se multidão de equívocos)
É justamente o ponto cego dos sentidos;
Oblitera a fonte das sensações puras,
toda verdade natural.

quinta-feira, 4 de outubro de 2007

O assassinato mais profundo

Assassinato mais profundo: é aquele que é um modo de relação, que é um modo de nos vermos e nos sermos e nos termos, assassinato onde não há vítima nem algoz, mas uma ligação de ferocidade mútua. Minha luta primária pela vida. “Perdida no inferno abrasador de um canyon uma mulher luta desesperadamente pela vida.”

Lispector
Uma Paixão segundo G.H

terça-feira, 2 de outubro de 2007

Mas eu estava no deserto

Acordei de súbito do inesperado oásis verde onde por um momento eu me refugiaria toda plena.
Mas eu estava no deserto. E não é só no ápice de um oásis que é agora: agora também é deserto, e pleno. Era já. Pela primeira vez na minha vida tratava-se plenamente agora. Esta era a maior brutalidade que eu jamais recebera.
Pois a atualidade não tem esperança, e a atualidade não tem futuro: o futuro será exatamente de novo uma atualidade.
Eu estava tão assustada que ainda mais quieta ficara dentro de mim. Pois parecia-me que finalmente eu ia ter que sentir.
Parece que vou ter que desistir de tudo o que deixo atrás dos portões. E sei, eu sabia, que se atravessasse os portões que estão sempre abertos, entraria no seio da natureza.
Eu sabia que entrar não é pecado. Mas é arriscado como morrer. Assim como se morre sem se saber para onde, e esta é a maior coragem de um corpo.
Lispector
A Paixão Segundo G.H

segunda-feira, 1 de outubro de 2007

A descoberta do Mundo

Se o meu mundo não fosse humano,
também haveria lugar para mim:
eu seria uma mancha difusa de instintos,
doçuras e ferocidades,
uma trêmula irradiação de paz e luta:
se o mundo não fosse humano eu me arranjaria sendo um bicho.
Por um instante então desprezo o lado humano da vida
e experimento a silenciosa alma da vida animal.
É bom, é verdadeiro, ela é a semente do que depois se torna humano.

Lispector

quarta-feira, 12 de setembro de 2007

Resposta

...e nascemos para viver não somente nas coisas grandiosas,
mas...
nos micros detalhes das pequenas e desfocadas partículas de vida,
na experimentação total de nós por nós mesmos,
todas as horas dos dias afora,
de uma vida que é igualitária aos seres,
e que estes se perdem dentro de seus próprios pesos-valores
determinando o equilíbrio ou não de viver...
Porque Sentir não é tudo minha cara,
é a única forma de viver!

terça-feira, 11 de setembro de 2007

Dá-me tua mão

Vou agora te contar como entrei no inexpressivo que sempre foi a minha busca cega e secreta. De como entrei naquilo que existe entre o número um e o número dois, de como vi a linha de mistério e o fogo, e que é linha sub-reptícia. Entre duas notas de música existe uma nota, entre dois fatos existe um fato, entre dois grãos de areia por mais juntos que estejam existe um intervalo de espaço, existe um sentir que é entre o sentir – nos interstícios de matéria primordial está a linha de mistério e fogo que é a respiração do mundo é aquilo que ouvimos e chamamos de silêncio.
Lispector

sexta-feira, 31 de agosto de 2007

O que faço

O que faço,
eles dizem ser imoral,
O que gosto dizem que faz mal.
A qualquer coisa boa,
uma negação ou a reputação!
O que vai ser?
À tapa ou a cara?
Que digam o que queiram,
Que falem à vontade,
Muito teatro para pouca cachaça.
O tempo passa,
As pessoas não.
falam o que não fazem,
E escondem o que gostam.
Uma bolha,
Onde tudo está onde era para estar,
E assim, tudo bem.
Mais vale uma mentira de verdade
Do que uma verdade de mentira!

Mudam-se...

Mudam-se os tempos,
mudam-se as vontades,
Muda-se o ser,
muda-se a confiança;
Todo o mundo é composto de mudança,
Tomando sempre novas qualidades.

Continuamente vemos novidades,
Diferentes em tudo da esperança;
Do mal ficam as mágoas na lembrança,
E do bem, se algum houve, as saudades.

O tempo cobre o chão de verde manto,
Que já coberto foi de neve fria,
E enfim converte em choro o doce canto.
E, afora este mudar-se cada dia,
Outra mudança faz de mor espanto:
Que não se muda já como soía.


Camões

quarta-feira, 29 de agosto de 2007

Confidence

If you're gonna eat each other, you must find a way to make it tastefully.

quinta-feira, 23 de agosto de 2007

fascínio

A língua portuguesa é quase música, quase cheiro, quase eu por inteiro...

terça-feira, 21 de agosto de 2007

Morena Tropicana

Da manga rosa
Quero gosto e o sumo
Melão maduro, sapoti juá
Jaboticaba teu olhar noturno
Beijo travoso de umbú cajá...
Pele macia
Ai! carne de cajú
Saliva doce
Doce mel
Mel de uruçú...
Linda morena
Fruta de vez temporana
Caldo de cana caiana
Vou te desfrutar.
Linda morena
Fruta de vez temporana
Caldo de cana caiana
Vem me desfrutar...
Morena Tropicana
Eu quero teu sabor!
Alceu Valença

segunda-feira, 20 de agosto de 2007

Viver

Houve um tempo onde tudo aconteceu e era completo para seu momento.
Tempo em que se avançava sem percepção,
tudo passava sem parecer ter passado.
Imenso e curto,
uma verdadeira contradição,
um desafio a bússola da lógica.
A luz,
as passadas rápidas,
o recostar dos corpos,
um mergulho no espaço tempo
e uma embolia pela pressa da passagem dos eventos.
Oxigênio já não faz mais bem.
O tempo passou e a memória mentalizada morreu.
Só restou os pontos de consciência de pele,
adormecidos como vulcões aguardando despertador tocá-los.
Que foram obliterados por outra consciência,
iludida por seus julgamentos
que fazia sentido ignorando a orgia dos sentidos,
das descargas viscerais,
como se fosse coisa controlável - transferível.
Viver é desprezar as coisas ideais,
é experienciar o natural por mais absurdo que pareça.

O mundo todo acontece

O mundo todo acontece sem a minha existência, mas só posso existir através do mundo. Desdobro-me em sustentar os espaços a serem preenchidos no percurso da vastidão da alma, liberto o espírito mais agressivo que se arrisca em todos os níveis para renovar-se, expandir em sua extensão ilimitada de ser. É penoso saber que o mundo independe de mim, que suas cores vivem sem a aparência que tenho de saber o que não se sabe, do proibido incoerente, da verdade íntima, do centro do eu, da mais divina incompreensão de ser, do colapso com tudo que é superficial. O mundo ocorre sem consciência, num paradoxo de portas tão estreitas e sublimes que sugere o que os enganados conhecem por passagem ao paraíso. O alinhamento da percepção dos sentidos é a única conexão com as alturas. Se julgar ser mais importante que o mundo, jamais chegará até as portas do encantamento de si. Nunca saberá da grande verdade sobre a relação com a vida. Por julgar saber a verdade, não lutará por ela impedindo a expansão contra as paredes de sua pequenez, a pseudo verdade burocrática, exprimível pela tangibilidade da continuidade, a prisão de orientação, a linearidade. Somente os sentidos nos guiam pela grande verdade, que é desconexa, descontínua, impraticável as mentes afogadas em razoabilidade.

domingo, 19 de agosto de 2007

Perdoando a Deus

>-eu fazia do amor um cálculo matemático errado: pensava que, somando as compreensões, eu amava. Não sabia que, somando as incompreensões, é que se ama verdadeiramente. Porque eu, só por ter tido carinho, pensei que amar é fácil. É porque eu não quis o amor solene, sem compreender que a solenidade ritualiza a incompreensão e a transforma em oferenda. E é também porque sempre fui de brigar muito, meu modo é brigando. É porque sempre tento chegar pelo meu modo. É porque ainda não sei ceder. É porque no fundo eu quero amar o que eu amaria - e não o que é. É porque ainda não sou eu mesma, e então o castigo é amar um mundo que não é ele. É também porque eu me ofendo à toa. É porque talvez eu precise que me digam com brutalidade, pois sou muito teimosa.
C. Lispector

Criar

Vou criar o que me aconteceu. Só porque viver não é relatável. Viver não é vivível. Terei que criar sobre a vida. E sem mentir. Criar sim, mentir não. Criar não é imaginação, é correr o grande risco de se ter a realidade.
c.L

sexta-feira, 17 de agosto de 2007

Sobre a convicção

Uma convicção é a crença de estar, num ponto qualquer do conhecimento de posse da verdade absoluta.
Essa crença supõe, portanto, que há verdades absolutas; ao mesmo tempo que foram encontrados os métodos perfeitos para chegar a isso; finalmente, que todo o homem que tem convicções aplica esses métodos perfeitos.
Essas três condições mostram logo a seguir que o homem das convicções não é um homem do pensamento científico; ele está diante de nós na idade da inocência teórica, é uma criança, qualquer que seja o seu porte.
Mas séculos inteiros viveram nessas idéias pueris que jorraram as mais poderosas fontes de energia da humanidade. Esses homens inumeráveis que se sacrificavam por suas convicções acreditavam fazê-lo pela verdade absoluta.
(...)
Não foi a luta de opiniões que tornou a história tão violenta, mas a luta da fé nas opiniões, isto é, nas convicções.
Se no entanto, todos aqueles que faziam de sua convicção uma idéia tão grande, que lhe ofereceriam sacrifícios de toda a espécie e não poupavam a metade de sua força para procurar por qual direito se ligavam a essa convicção antes que a essa outra, por cujo caminho tinham chegado que aspecto pacífico teria tomado a história da humanidade!
Como teria sido muito maior o número de conhecimentos! Todas essas cenas cruéis que a perseguição dos herdeiros em todos os tipos oferece nos teriam sido poupadas por duas razões: em primeiro lugar, porque os inquisidores teriam dirigido antes de tudo sua inquisição para eles mesmos e com ela teriam terminado com a pretensão de defender a verdade absoluta; em segundo lugar, porque os próprios partidários de princípios tão mal fundados como são os princípios de todos os sectários e todos os “crentes no direito”, teriam cessado de compartilhá-los depois de tê-los estudado".
"As convicções são inimigas da verdade mais perigosas que a mentira".
f.N

A Paixão segundo G.H

A verdade não faz sentido, a grandeza do mundo me encolhe. Aquilo que provavelmente pedi e finalmente tive, veio no entanto me deixar carente como uma criança que anda sozinha pela terra. Tão carente que só o amor de todo o universo por mim poderia me consolar e me cumular, só um tal amor que a própria célula-ovo das coisas vibrasse com o que estou chamando de um amor. Daquilo que na verdade apenas chamo mas sem saber-lhe o nome.
Lispector

quarta-feira, 15 de agosto de 2007

A Paixão segundo G.H

---estou procurando, estou procurando. Estou tentando entender. Tentando dar a alguém o que vivi. Não sei o que fazer do que vivi, tenho medo dessa desorganização profunda. Não confio no que me aconteceu. Aconteceu-me alguma coisa que eu, pelo fato de não saber como viver, vivi uma outra? A isso quereria chamar de desorganização, e teria a segurança de me aventurar, porque saberia depois para onde voltar: para a organização anterior. A isso prefiro chamar de desorganização pois não quero me confirmar no que vivi - na confirmação de mim eu perderia o mundo como eu o tinha, e sei que não tenho capacidade para outro.

Se eu me confirmar e me considerar verdadeira, estarei perdida porque não saberei onde engastar meu novo modo de ser - se eu for adiante nas minhas visões fragmentárias, o mundo inteiro terá que se transformar para eu caber nele.

C. Lispector

quarta-feira, 1 de agosto de 2007

There's nothing to do with poetry, it's all about writting.

terça-feira, 31 de julho de 2007

Intransferível

eu. que quando pego carona na imaginação, sento na janela para colocar a cabeça para fora e observar toda paisagem que crio com o vento a cortar face.
recebo todas novidades com a alegria de quem recebe cartas das pessoas distantes;
abro uma a uma com toda ansiedade de chegar ao fim.
corro para fora com um sorriso florindo o dia de quem nasceu cinza.
olho para os lados,
para cima e para baixo,
percebo a solidão da alegria.
aquilo que me acomete só tem efeito em mim mesmo,
ainda que dividida.

sábado, 28 de julho de 2007

Sobre o casamento

O casamento é o princípio da multiplicidade dos problemas da soma de dois seres. Seria o casamento matemática? Certamente não seria homeopático, muito menos soluçao!

sexta-feira, 27 de julho de 2007

Razoável

Ao preparar pratos que requerem especiarias escassas e refinadas, tenha certeza que seja para um paladar apurado, caso contrário - um pouco de sal substitui em bom tamanho o desperdício.

sábado, 21 de julho de 2007

A Grande Santidade


Nós, os novos, os inominados, as gentes difíceis de compreender, nós, filhos aparecidos antes do termo de um futuro ainda não aprovado, temos, para fins novos, necessidade de um meio que seja novo, precisamos de uma nova saúde, de uma saúde que seja mais forte, mais aguda, mais obstinada, mais intrépida, mais alegre do que qualquer outra que tenha existido. A alma que aspira a tomar conhecimento de todos os valores que tiveram curso até aqui e de tudo o que se pôde encontrar de desejável, de visitar todas as costas deste “mediterrâneo” ideal, a alma que deseja aprender a conhecer, pela aventura da experiência mais intimamente pessoal, os sentimentos que tiveram antigamente os artistas, santos, legisladores, sábios, devotos, adivinho, eremitas, essa alma tem necessidade de uma coisa acima de tudo: a grande saúde...aquela que não basta ter, a que se adquire, que é necessário adquirir, constantemente, por ser sacrificada sem cessar, por ser necessário sacrificá-la sem cessar!... Então, no termo das nossas longas viagens, nós, argonautas do ideal, mais corajosos talvez do que aquilo que é prudente, freqüentemente confusos, ainda mais freqüentemente naufragados, mas de melhor saúde do que se gostaria talvez de nos permitir, perigosamente, sempre de melhor saúde, parece-nos que, em recompensa, nos encontramos em face de uma terra inexplorada, de que nenhum olhar jamais apercebeu os limites, num além de todas as terras e de todos os recantos do ideal, em um mundo tão pródigo de beleza, de desconhecido, de problemas, de terror e de divino que a nossa curiosidade e a nossa avidez se deliciam fora de si próprias, e que, ah, nada, nada mais poderá saciar!
Como é que, diante de tais visões, como é que, com esta terrível fome de saber, com estes repentinos apetites da consciência, seríamos capazes de nos satisfazer, daqui em diante, com um homem atual? Deploramo-lo, mas trata-se de um fato inevitável: já não podemos conservar facilmente a nossa gravidade em face aos seus objetivos, das suas esperanças mais dignas, não podemos sequer consagrar-lhe um olhar. Vamos atrás de um ideal muito diferente, um ideal prodigiosos, tentador, pleno de perigos, e que não gostaríamos de recomendar a ninguém porque não reconhecemos facilmente a qualquer pessoa o direito de ter: é espírito que brinca ingenuamente – quero dizer sem intenção, porque a sua plenitude e a sua força transbordam – com tudo o que antes dele se chamou santo, bom, intangível e divino; espírito para o qual os mais elevados valores, de que um povo se serve logicamente como escalão, já só significam perigo, declínio, envilecimento, ou, pelo menos, repouso, cegueira, esquecimento momentâneo de si; é um bem-estar, uma benevolência que, sobre-humanamente humana, só muitíssimas vezes pode aparecer desumana, quanto mais não seja no momento em que se põe ao lado de tudo o que fez a gravidade terrestre até aqui, ao lado das solenidades do verbo e do tom, do olhar, da moral, do dever, como paródia incarnada e involuntária dessas pompas; ideal com o qual, portanto, começa talvez a grande seriedade, com o qual pela primeira vez se põe o ponto de interrogação no lugar onde é necessário pô-lo, ideal que coloca a alma numa curva do seu destino, ideal que põe o ponteiro a andar e a iniciar a tragédia...


Nietzsche

O grande mistério

Tudo que entendemos por mistério na vida, nos distancia por não termos consciência suficientemente forte para combater a própria presunção, aprendemos um pouco de alguma coisa e já tomamos por verdade absoluta e indissolúvel, assim deixamos de viver todas possibilidades de amplificação que é contínua e infinita. Na vida não existe mistério algum, tudo simplesmente existe, tudo se relaciona entre si, tudo é conseqüência, tudo vai e volta, não precisa de significação. Nossa demasiada limitação linear de perspectiva das coisas aprisiona alma e desenha fronteiras intransponíveis de meias verdades que só preenchem meias pessoas. Existe muita sabedoria na ignorância, como a submissão ao regalo da praticidade, tirania de qualquer coisa que nos guie, o respaldo da transferência de culpa! Porque a culpa nasce e cresce em qualquer lugar que não seja em nós. Devemos celebrar os encontros, a conspiração do universo, mas só os que estão atentos é que percebem, apenas os que estão preparados compreendem. Apenas os que são responsáveis por sua sorte. Aprender a desaprender para começar a aprender novamente, abrir os olhos da mente para o que não mente. Não existe verdade cientifica, provas técnicas, existe verossimilhança na relação do eu com o mundo, mas é necessário olhos bem treinados para o desconhecido, para aquilo tudo que não se explica, das coisas indizíveis, dos sentimentos intraduzíveis.

terça-feira, 10 de julho de 2007

Que coincidência é a vida


Todas as coisas adormecidas
despertam nos encontros inequívocos
dos desencontros encontrados.
Que coincidência é a vida!
Que precisão existe no caos do universo!
Quão acurada assimetria se faz a perfeição!
Todo mistério reside entre
a curva do surreal
e a confissão mística do universo
– da lei da atração –
da força bruta;
do embate dos desejos
versus os próprios desejos;
centrifugando alma e carne
intumescidas ao pé da língua,
desfazendo-se em saliva,
eriçando-se,
contorcendo-se,
ebulindo!
E que razão poderia ter
alguma coisa à esta altura?
Quem se encontra
preparado para tais coincidências?

segunda-feira, 9 de julho de 2007

O som dos passos


Quero me embrenhar na brisa
que escorre ao seu sabor
pelas esquinas e janelas da vida,
nas curvas do movimento
inventivo da alma sem fim...

Enquanto não chegar a última saída,
não deixarei de procurar os traços desse labirinto
de verdades translúcidas dos sentidos.

É como sede interminável,
são assaltos de frio,
olhos mirando
alma brilhando...
O cheiro da noite,
o beijo de fruta,
pele na pele,
sabor latente
de cheiro molhado,
a sombra da lua,
tudo que cala,
tudo que inflama;

Posso ouvir os passos da corrida ao seu encontro.
Quero a realidade de tudo isso líquida e sem dosador!

Escuto as vozes dos poros se abrindo,
vejo alma estufando peito em meio
ao engarrafamento de todos os sentimentos humanos,
ouço as engrenagens de toda função motora estourarem
e me abraço aos braços que saem dos seus olhares.

Sou a alma toda vazando,
ruindo,
superando espaço,
explodindo volume.
Não sei o que sou mas sei o que sinto,
só não sei se o que digo diz alguma coisa do que realmente sinto.

quinta-feira, 5 de julho de 2007

Podes Crer




O que é meu irmão!
Eu sei o que te agrada
E o que te dói
E o que te dói
É preciso estar tranqüilo
Pra se olhar dentro do espelho
Refletir
O que é?
Seja você quem for
Eu te conheço muito bem
Isso faz bem pra mim
Isso faz bem pra vida
Onde quer que vá
Vou estar também
Eu vou me lembrar
Daquela canção que diz
Parapapapa...
Bendito
Encontro
Na vida
Amigo
É tão forte quanto o vento quando sopra
tronco forte que não quebra,
não entorta
Podes crer,
podes crer
Eu tô
falando de amizade...

(Composição: Toni Garrido- Da Gama- Lazão- Bino Farias)

quarta-feira, 4 de julho de 2007

É atuando que devemos abandonar

Eu odeio, no fundo, toda moral que diz: “Não faças isto, não faças aquilo; Renuncia. Domina-te...” gosto, pelo contrario, da moral que me leva a fazer uma coisa, a refazê-la, a pensar nela de manhã à noite, a sonhar com ela, e a não ter jamais outra preocupação que não seja faze-la bem, tão bem quanto for capaz, e capaz entre todos os homens. A viver assim despojamos, uma a uma, de todas as preocupações que não tem nada a ver com esta vida: vê-se sem ódio nem repugnância de desaparecer hoje isto, amanha aquilo, folhas amarelas que o menor sopro um pouco vivo solta da arvore; ou mesmo nem sequer se dá por isso, de tal modo que o objetivo absorve o olhar.

Friedrich Nietzsche

segunda-feira, 2 de julho de 2007

Quintessência

Todas as coisas pertinentes à essência da vida são silenciosas, indescritíveis, indiscutíveis, inexplicáveis, são apenas sentidas e nada mais.

domingo, 24 de junho de 2007

"porque a verdadeira poética não é uma coisa sistemática.nem um sentimento absurdo"
http://mendesferreira.blogspot.com/

sábado, 23 de junho de 2007

Intraduzível

Os abraços são intraduzíveis,
por mais cores e formas que se possa pintá-los,
não é possível descrever seus efeitos.
A combinação dos abraços com beijos mais
tempero de pele e vontade;
Inviabiliza que qualquer linguagem
seja suficiente
para traduzir o desencadeamento
de ondas eletroquímicas
que violentamente inundam a rede sensorial

varrendo enlouquecidamente
em rebentações extasiantes
o sistema geral do indivíduo
que experiencia dessa fonte.
Mas é necessária
uma coincidência quase genética
na compatibilidade dos corpos envolvidos
para elevar o prazer ao avesso,
é preciso que sejam combustíveis
simbioticamente lascivos
para que este fenômeno
desenvolva-se em sua plenitude.
Neste ponto a saliva alucina todos os desejos
e os lábios brincam soltos a procura de textura eriçada,
temperatura -
liquefação cutânea ...

Libertate

Liberdade é por definição
experienciar os sentidos sem rédeas,
começar quantas vezes desejar,
ir e voltar para si,
tomar posse de sua totalidade.
Desatar nós,
reduzir à cinzas as condições,
doutrinas e vontade alheia.
É a Revolução da alma sobre mazelas humanas,
Páginas viradas de um livro em branco.
Ser livre é viver as coisas fundamentais com a seriedade das crianças,
o prazer > os sentimentos > as pessoas - lugares e suas revelações.
Descobrir a si próprio!
Abrir os braços contra o vento,
pairar sobre si e apossar de todos os desejos,
expressá-los sem culpa,
sem medo,
sem vergonha!
Permitir, reinventar,
renovar velhas novas amizades,
inventar o que sentir...
...sentir o que quiser!
Mudar de opinião
Trocar de paixão,
b.e.i.j.a.r a.t.é o.s o.l.h.i.n.h.o.s m.u.d.a.r.e.m d.e c.o.r.
sentir sem pensar, sem razão!
Ser livre é sobretudo,
estar bem acompanhado de si
Bastar-se e seguir em frente.
Viver sem prestar contas,
não agradar - não se importar,
Contradizer e tornar a dizer,
quantas vezes convir...
Dançar no quarto;
...cantando para uma multidão imaginária
de dentro do seu espelho...
...Viver sem culpa,
ainda que não tenha razão,
pois não existe razão em ter razão.
Voar alto sem pouso certo,
sem especulações,
sem sofrimento antecipado,
de olhos bem abertos!
sem rumo, sem altura,
de portas abertas e janelas secretas.
Viajar sem destino,
Cantar sem motivo,
estrada sem fim...
De alma lavada
sorrindo
para mim!

segunda-feira, 18 de junho de 2007

para além dos dias mortos


Para além dos dias,
pela costa após a serra,
um mar para além dos mares.

Praias solitárias, pedras duras,
reflexões corrosivas.
Promessas escritas em areia,
apagadas antes mesmo do sol se pôr.

Para trás só restaram lembranças,
dos dias que aconteceram e morreram,
dos dias de sol e chuva,
dos lábios molhados e dos escândalos de pele.

Tudo ainda vive como seu cheiro,
doente tempero, preciso como espelho.
Aglutinação lasciva de poros eriçados,
sincronizados aos estímulos,
estufando pele como espinhos.
Grito silencioso de corpo em erupção.

Onde foi que nos perdemos?
Vou agora para além dos dias mortos,
para todo o sempre, noutra morada, aos mesmos prazeres.

Minguante


Numa tempestade de insights dou luz a uma criança que jamais fora concebida, a terra treme procurando se acomodar, tufões arrastam com fúria o excesso, a natureza se apodera desse ser.
Este que luta e reluta contra si mesmo, contra as estreitezas da alma que vagueia na escuridão de suas dúvidas, que chora a impossibilidade de sua cura, que se embebeda de luz sem ascender.
Procura, não encontra, corre e se cansa, aos berros mira atenção, mas o eco do descaso é cruel. Absorto em dor, sente o próprio corpo minguar, como lua no seu quarto equivalente em tormenta, ferro e fogo.
Questiono se sobrevive, se é medíocre, se dor é real, se o mal está ou veio a ele, se é pura fraqueza ou desvio de atenção intensificado num momento de vulnerabilidade.
Quantas faces roçaram, quantos lábios bebeu, quantos perfumes tragou, quanto calor sentiu. Porque somente este lhe falta, lhe foge, lhe mata!
Procurou tesouros maiores, lugares mais calmos e a comparou com todos os paraísos que aportou, ainda assim como louco se desfaz em pedaços ...Sempre teve medo do mar, é traiçoeiro. Finge-se de calmo, mas te engole, é lindo mas aniquila, e se não mata te joga contra as pedras, frias e duras amigas incrustadas de cracas e ouriços que só estão ali porque existem e não tem o direito de ser o mar, por isso quer deformar... Mas se fosse pescador, o temeria tanto? Se soubesse ler suas ondas e correntezas, seria preciso? Pessoa imortalizou: Navegar é preciso, viver não é preciso. Transforme necessidade em precisão e precisamente chegue à conclusão.

quinta-feira, 14 de junho de 2007

Escreva o que quiser




Escreva o que quiser, pegue um punhado de palavras e atire ao céu, tome chuva de frases e onde escorrer, estará no lugar certo. Se preferir jogue-as contra o ventilador, quando mais novo adorava fazer isso com cadernos dos outros, agora só faço nos meus. Pode-se também encher um tanque ou piscina – o que dispor, encha-os de maneira a transbordar quando decidir mergulhar. Atreva-se, dispa-se, get your thoughts naked! Escandalize ou tranqüilize, mas destile.


Dance com as palavras ao som que melhor lhe estimular, dance como se ninguém estivesse olhando, libertação espiritual lisérgica. Feche os olhos e permita acontecer, a permissão é a chave de tudo, não a permissão que deixa qualquer coisa passar, mas a seletiva. Seja bonito, ou seja horrível, mas seja genuinamente você, não o que os outros esperam que seja. Deixe as regras para cães adestrados, não estrangule sua fonte criativa com limitações mundanas, projete-se! Leve suas idéias a praia, sua imaginação precisa de sol. Cante, não murmure, a não ser que sejas ondas, caso contrário, cante! Liberte-se, solte a voz das profundezas de seu poço encantado e deixe o mundo inteiro ouvir, ainda que desafine.


Siga em frente, mesmo que tenha que atravessar paredes, se puder transpor uma, será capaz de realizar qualquer coisa, creia! Converse muito com pessoas interessantes, escute, não existe maior aprendizado do que numa boa conversa. O meio transforma os seres, seja você a transformação do seu meio.


Livre-se das velhas coisas, das antigas perturbações, faça novas melhores amizades, escute novos ritmos, assista filmes cuja compreensão necessite algo além da alfabetização, não beba pouco, nem muito, somente o suficiente. Os copos dizem mais que muitos livros, mas o vinho, ah...! O vinho guarda mais sabedoria do que todas universidades. Coma muito e bem, não se permita morrer sem experimentar as cozinhas do mundo, especialmente a francesa. Faça o roteiro, direção e produção. Escreva abertamente, seja honesto consigo, assuma riscos e quando encontrar alguma coisa boa, cuide bem! Sobretudo, sempre tenha caneta e papel a mão, as palavras não chegam com hora marcada...

quarta-feira, 13 de junho de 2007

Num dia de Sol Estradeiro


Num dia de sol estradeiro, sigo a sina de caminhar, com o peso das sombras a aturdir, o caminho que por ora escolhi. Homem de pé no chão, carrega as pedras nas palmas marcadas, é vermelha, é escura, como a visão que tenho do mundo. Bate o vento as costas empurrando ao destino marcado com X maiúsculo, hasteado em bandeira alta para todos olhos enxergarem. Se acaso consentir, que chegue você também ao mesmo ponto. De lá partiremos para outro, como sempre acontece com os ventos e suas direções, indo de lugar em lugar, ora parando, ora ventando, mas sempre mudando, sempre chegando noutro lugar. Se por acaso a noite chegar com seu manto curioso de céu infinito, suba no monte mais alto, procure a estrela mais cintilante e aguarde por cantigas deste boêmio, que a acolherá como um terroir vigorosamente fértil, que produz das mais doces uvas o mais fino vinho, assim poderei lhe tomar em taças sem vergonha, sobre mesa sem velas, num quarto sem paredes, numa noite sem fim...

quinta-feira, 7 de junho de 2007

Há em nós Exploradores e Explorados


Há em nós exploradores e explorados, que disputam entre si o poder que exercem sobre nós. Comandam nossas inclinações, receios, expressam força de vontade e a falta dela. Por vezes somos explorados por dúvidas e repressões desencontradas sobre assuntos ordinários, mas na maior parte do tempo, deve-se reinar um espírito natural, explorador sensorial, uma vontade incontida de expressão superior, que em harmonia conduz sentimentos e impulsos a realização de seus desejos sem tomar conhecimento das distrações.
Só se deve reprimir desejo, caso este condicione a invasão de alma alheia, interfira no livre arbítrio de outro ser, para todas outras coisas de espírito é preciso ser honesto até a dureza.*

No amor ou em nome dele, é muito comum o erro da exigência de retribuição afetiva. Não se pode exigir ser amado, a pretensão mais inconveniente a que, só os doentes do ego são vulneráveis. Cegos de olhos sadios! Flagelam-se em desespero agarrados a verdades de mão única, a razões indivisíveis, ao egoísmo idiotizado...Quem sofre desse mal, desconhece o amor, nunca o foi revelado. Um está sempre errado, mas com dois, começa a surgir a verdade. Um não consegue provar o seu caso, mas dois são irrefutáveis.*
O amor é uma transmutação físico química que enleva dois seres a cobertura da alma, onde a vida escorre por ambos sem percepção de espaço tempo, sem buscar razões, bastam-se a si próprios, tornando-se até mais leves que o ar, certamente pela alta temperatura que se alcança. Mas como o amor não se revela em palavras, os egoístas sempre serão cegos arrastando fardos de sofrimento buscando seus culpados.


*As citações em itálico são nietzscheanas.

terça-feira, 5 de junho de 2007

Pensar


No martírio dos pensamentos, me perco entre sucessivas invasões que ocorrem entre a inacabada confusa consciência, e meu visionário sublime inconsciente. Abandonando o consciente, num assalto súbito de clarividência, contemplo a manifestação para toda verdade. Em desvio de espírito, tudo se perde ao tentar procurar explicação. É rara a libertação da condição consciente para contemplação da beleza de qualquer coisa que se revele, sem julgamentos. A grande maioria só roça o inconsciente através dos sonhos, a sina de um mundo demasiadamente racional. Virar os olhos para dentro não é tarefa para essa embrutecida cultura.

Vita feminina

Ver as últimas belezas de uma obra, por maiores que sejam a nossa ciência e a nossa boa vontade, é a tarefa para a qual elas não poderão bastar; são ainda necessários os mais felizes acasos, as coincidências mais raras, para afastar dos altos dos cumes o véu das nuvens e fazer brilhar o sol sobre eles. Para distinguir este quadro, não podes contentar em estar no bom lugar: é preciso que a própria alma se tenha despojado também do véu das suas próprias alturas e que sinta a necessidade de uma expressão, de um símbolo exterior, para conhecer uma espécie de paragem, para ficar senhora de si própria. Mas tudo isso se encontra tão raramente reunido que estou muito tentado em crer que os mais altos cimos de toda a perfeição, quer sejam numa obra, numa ação, num homem, ou na natureza, estiveram escondidos até aqui, velado nos olhos da maior parte, mesmo dos melhores... e aquilo que se nos desvenda, só se desvenda uma vez!
Os Gregos pediam “duas e três vezes a beleza total”...É que tinham, ai de mim, uma excelente razão para assim se dirigirem aos deuses: a realidade, não divina, recusa-nos o belo ou só nos dá uma vez! Considero que o mundo, repleto de belas coisas, é, contudo, pobre, extremamente pobre em belos instantes e em revelações destas coisas. Mas talvez que seja esse o maior encanto da vida: carrega consigo, bordado a ouro, um véu prometedor, defensivo, púdico, trocista, complacente e tentador de belas possibilidades. A vida certamente, é uma mulher!
Friedrich Nietzsche

segunda-feira, 4 de junho de 2007

A consciência


A consciência é a última fase da evolução do sistema orgânico, por conseqüência também é aquilo que há de menos acabado e de menos forte no sistema. É do consciente que provém uma multidão de enganos que fazem com que um animal, um homem, pareçam mais cedo do que seria necessário, “a despeito do destino”, como dizia Homero. Se o laço dos instintos, este laço conservador, não fosse de tal modo mais poderoso do que a consciência, se não desempenhasse, no conjunto, um papel regulador, a humanidade sucumbiria fatalmente sob o peso dos juízos absurdos, das suas divagações, da sua frivolidade, da sua credulidade, numa palavra do seu consciente: ou antes, há muito tempo que teria deixado de existir sem ele! Enquanto uma função não está madura, enquanto não atingiu o seu desenvolvimento perfeito, é perigosa para o organismo: é uma grande sorte que ela seja bem tiranizada! A consciência é-o severamente, e não é ao orgulho que o deve menos. Pensa-se que o orgulho forma o núcleo do ser humano; que é seu elemento duradouro, eterno, supremo, primordial! Considera-se que o consciente, é uma constante! Nega-se o seu crescimento, as suas intermitências! É considerado como “ a unidade do organismo”! Sobrestima-se, desconhece-se, ridiculamente, aquilo que teve consciência eminentemente útil de impedir o homem de realizar o seu desenvolvimento com demasiada rapidez. Julgando possuir consciência, os homens pouco se esforçaram por a adquirir; e ainda hoje estão nisso! Trata-se ainda de uma tarefa eminentemente atual, que o olho humano começa apenas a entrever, a de se incorporar o saber, de o tornar instintivo no homem; uma tarefa de que só se dão conta aqueles que não compreenderam que até aqui o homem só incorporou o erro, que toda nossa consciência se relaciona com ele.


Genialidade suprema de Friedrich Nietzsche - Gaia Ciência, 1882 > Milênios a frente da humanidade atual

Quando a Erva Crescer

Quando a erva crescer em cima da minha sepultura, Seja este o sinal para me esquecerem de todo. A Natureza nunca se recorda, e por isso é bela. E se tiverem a necessidade doentia de "interpretar" a erva verde sobre a minha sepultura, Digam que eu continuo a verdecer e a ser natural.
Alberto Caeiro

Assim Como

Assim como falham as palavras quando querem exprimir qualquer pensamento, Assim falham os pensamentos quando querem exprimir qualquer realidade, Mas, como a realidade pensada não é a dita mas a pensada. Assim a mesma dita realidade existe, não o ser pensada. Assim tudo o que existe, simplesmente existe. O resto é uma espécie de sono que temos, infância da doença. Uma velhice que nos acompanha desde a infância da doença.
Alberto Caeiro

Não Basta

Não basta abrir a janela Para ver os campos e o rio. Não é bastante não ser cego Para ver as árvores e as flores. É preciso também não ter filosofia nenhuma. Com filosofia não há árvores: há idéias apenas. Há só cada um de nós, como uma cave. Há só uma janela fechada, e todo o mundo lá fora; E um sonho do que se poderia ver se a janela se abrisse, Que nunca é o que se vê quando se abre a janela.
Alberto Caeiro

domingo, 3 de junho de 2007

Verdade dos Olhos




Algumas verdades só vêm a superfície através dos olhos,

da boca saem todas as coisas, mas só olhos dizem a verdade,

pelo bem ou pelo mal.

Então...
olhe nos meus olhos,

quero mergulhar em sua verdade e agarrá-la como se a vida dependesse dela.

E se a verdade for chuva,

quero ser o rio, o curso e o mar onde a chuva é acolhida.

Derrama a verdade por essas águas,

inunde as meas verdades, transborde luz!

Liberte um escravo de sua escuridão,

mire nos meus olhos...

Se Eu Morrer Novo

Se eu morrer novo, Sem poder publicar livro nenhum, Sem ver a cara que têm os meus versos em letra impressa, Peço que, se se quiserem ralar por minha causa, Que não se ralem. Se assim aconteceu, assim está certo.
Mesmo que os meus versos nunca sejam impressos, Eles lá terão a sua beleza, se forem belos. Mas eles não podem ser belos e ficar por imprimir, Porque as raízes podem estar debaixo da terra Mas as flores florescem ao ar livre e à vista. Tem que ser assim por força. Nada o pode impedir.
Se eu morrer muito novo, oiçam isto: Nunca fui senão uma criança que brincava. Fui gentio como o sol e a água, De uma religião universal que só os homens não têm. Fui feliz porque não pedi cousa nenhuma, Nem procurei achar nada, Nem achei que houvesse mais explicação Que a palavra explicação não ter sentido nenhum.
Não desejei senão estar ao sol ou à chuva — Ao sol quando havia sol E à chuva quando estava chovendo (E nunca a outra cousa), Sentir calor e frio e vento, E não ir mais longe.
Uma vez amei, julguei que me amariam, Mas não fui amado. Não fui amado pela única grande razão — Porque não tinha que ser.
Consolei-me voltando ao sol e à chuva, E sentando-me outra vez à porta de casa. Os campos, afinal, não são tão verdes para os que são amados Como para os que o não são. Sentir é estar distraído.
Alberto Caeiro

sábado, 2 de junho de 2007

Gosto de estar à toa, fora do estado de alerta comum dos que respondem alguma coisa. Não por não querer responder a nada, mas por saber que as coisas que devem ser levadas a sério estão distantes da obrigação.
Trato de tratar bem a vida. Não para saborear o suco, mas para me tornar o próprio fim desse meio.
Domingo de sol ao som e luz, dançando no tempo sem horas, vivo a viver, passeando por labirintos inativos à rotina e certos da saída...

Se toda estrada fosse poeria

Se toda estrada fosse poeira, meus pés seriam emborrachados, como coisa que criasse aderência. E nas montanhas venceria todas as horas o descompasso de meus contratempos. Pra trás deixaria toda melancolia de meus pesares, e numa arena me atiraria a dançar só desejando contemplar os belos domingos de sol. Apenas meus botões me compreendem, então os deixo soltos a me esculpir...
Só minha alma sabe o que é preciso para caminhar...só meus botões me desenham o que sou de verdade, porque sou o mais profundo desejo, a expressão mais ampla de minha vontade, a inclinação da diversão sem culpa, a vida sem alardes!

Libertação



Libertar dos pensamentos
e entregar cegamente às sensações
até tornar-se os próprios sentidos,
febril, latente, pungente, em fratura exposta,
somente... sentindo.
De todos os males da humanidade,
pensar é o mais vulgar e presunçoso de nossas funções. Estrangula e banaliza as formas d’alma.
Os pensamentos concebem paixões póstumas,
aleija os impulsos,
secam os desejos até nos tornar desertos de si próprio.
Contemplar instintivamente a vida é soltar-se no outono, degustar o inverno, florescer na plenitude da primavera e despir-se no verão.

quarta-feira, 30 de maio de 2007

Sentir a vida como quem procura revelação


Sentir a vida aspirando conhecimento direto, revelação, não como quem acha que já sabe e não despende aperfeiçoamento, mas com fome de todos os dias. Perseguir o conhecimento através da experimentação mais íntima e completa, em transe musical, arranjos sublimes reluzindo em notas arrebatadoras...Saborear a vida em abocanhadas, deliciosamente quente, irresistivelmente doce, de dentro pra fora, de fora pra dentro, do avesso...

Amar sem limites, até onde a curva dos desejos riscar o horizonte dos sentidos, onde o sol plunge ardendo pele que grita em silêncio, que em erupção transborda torrentes químicas absortas em sentimentos genuínos. Inconseqüente, em queda livre, fora de controle. Beber a vida aos goles ou de uma vez se possível for. Passear pelo corpo em todas suas possibilidades, preencher todos espaços até sua indivisibilidade, se perder no tempo, afogar-se em si próprio. Sentir a sedução do céu pela gentileza da chuva e do vento escorrendo ao rosto, tome a realidade de tudo isso para si com delicadeza maternal.

Sorrir por existir e não ser expectador, expressar a beleza de tudo isso em música, porque sentir é uma expressão musical e viver assim, é ser verdadeiramente livre.Dançar desavergonhadamente como as coisas que flutuam livremente no ar, manobrar as notas, reconhecer que a vida é cíclica e tudo que desaparece é absolutamente necessário para concepção de outras, nem melhor, nem pior, simplesmente um fenômeno de renovação. O dia tem que esvaecer para nascer uma nova bela noite!

Compreender que as melhores experiências que viveu, não são mais do que melhores lembranças, a vida é daqui pra frente não daqui pra trás. E tudo que deixar de fazer hoje não terá mais oportunidade amanhã. Quando estiver nos seus 60 anos, só vai poder lamentar o que deixou de fazer na sua juventude, e o seu corpo já não terá mais disposição para emoções desperdiçadas.

Escutar as coisas com o coração, não estrangule vontades, não existe moral que seja mais importante que suas necessidades. Não se preocupe demais, isso não altera em nada o resultado definitivo dos problemas. Por fim, é necessário que se tenha espírito pra se viver assim, que se tenha uma saúde despojada de máscara, que seja forte suficiente para quebrar paradigmas, para chegar a ser o que se é...

Devaneios

...Parece que desce, mas sobe a ladeira como quem tem muita pressa de chegar ao seu destino. Passeando pelos sentidos, nos sentimos vivos e deixamos de apenas existir. Do sentimento maior nascem todas as outras coisas, todos os outros vivos que se tem conhecimento. Quem só enxerga o que os olhos alcançam, não dança na chuva, não se torna música, não viaja, e justamente por isso, não sente falta. Somos pássaro novo aprendendo a voar, isso explica a falta de prática nas aterrissagens, sobretudo, porque tanto queremos voar... Sabemos que, do alto, enxergamos tudo o que os outros não vêem, contudo, temos problemas para enxergamos de perto. Que ironia! Confusão para uma necessidade demasiadamente humana de buscar uma finalidade para as coisas. O amor não tem finalidade, nem o câncer do idealismo, procura nas coisas apenas o sentir e basta-se ao viver assim. Se eles nos chamam de loucos, os chamo de seres sem vida, se procuram razão para existir é por serem retilíneos demais. Sem terem orientação melhor, não por falta de opção, mas por ausência de uma consciência adequada para focalizar sua miopia, são seres fadados a unicamente existir, sem sentir o pulsar da vida. Eu que existo, e aprendi a sentir, por conseqüência, pulsar. Abro os braços e saio do chão, como um balão inflado e cheio de si, sobrevoando os campos num percurso sem fim, guiado pelos instintos seguindo um caminho feito de flores e espinhos também. Não basta o saber/conhecer por imaginação, pois uma coisa é saber, outra é experimentar. “ O sabor da fruta não está na fruta, e sim no contato do paladar com a fruta”(C.L.)
É sabido que não basta se desprender da razão e mergulhar em intuição, uma boa receita não depende do excesso, mas da harmonia da mistura de seus ingredientes. Um prato não pode ser considerado bom, apenas pelo sabor, mas textura, consistência, nuances entre as combinações de sal e açúcar, doce e azedo, temperatura e pela sua beleza...

A Seca


E quando fui ao seu encontro, não te alcancei. Acabou por não tomar conhecimento despropositadamente, como quem esbarra em qualquer coisa que não se enxerga.
Gritei, mas ninguém ouviu, quis as cores, mas tudo era cinza, o céu a terra e até os campos, a vida secou. Se trouxesse sua aquarela transformaria tudo em vida novamente, mas não consentiu. É necessário respirar, mas me falta ar, é preciso voltar, mas falta força, é mister lutar e estou sem pulso. A alma está morta, a vida se esvaeceu, já não vivo mais.

Subi num pé de frutas

Subi num pé de frutas, dessas que são doces e azedas, cravei os dentes em quantas pude, uma tinha sabor diferente da outra, uma era maior que outra, suculentas, extremamente doces, impossivelmente azedas! Seria possível separar cada mordida a parte que mais me apetece? E se possível fosse, existiria prazer nos sabores isolados?

Ao sétimo dia


Ao sétimo dia reservo as brincadeiras de ser, a libertação de todas futilidades do mundo. A este dia me junto as celebridades de espírito, a grande estrela, pé no chão em ritmo cardíaco. Tudo se transforma, com a mais sublime clareza visualizo o ambiente em micro detalhes, movimento, sintonia e formas, nada foge as lentes da percepção.

Os idealistas

Os idealistas são lenha para a fogueira do meu pensar. A todos aqueles que suscitam fidelidade na amizade ou no amor como forma de caráter justo, de necessidade pessoal, certamente já sofreu com a falta disso tudo ignorando a verdadeira natureza deste sentimento. O que é uma pessoa de caráter? Um Ser que jamais trocou seus princípios somente por obediência retilínea? Para ser o que os outros esperam que seja? Para viver sonhos alheios? De todas mesquinhas pretensões humanas, demandar fidelidade é provavelmente a maior, frequentemente confundida com virtude. Não se adquire fidelidade! “Pessoas que nos dão toda sua confiança acreditam, com isso, ter direito à nossa. É um erro de raciocínio; dádivas não conferem direitos.” vislumbrou Nietzsche.A fidelidade está longe de ser uma virtude ou direito como observa o mestre, é por definição uma vontade livre e superior que aprisiona o espírito sem se sentir encarcerado. É ignorar o resto do mundo navegando num fluxo contínuo, voltar os olhos para o cerne de sua inspiração num profundo envolvimento sem obrigação, é reduzir todas as bocas em uma, compactar o universo num único corpo tornando-se ele próprio, acordar e dormir sem esquecer, é nunca saciar a sede...Não se pode querer ser fiel, seria como querer ser inteligente, ou sentir frio no verão ou ter fome de barriga cheia por julgar necessário, moral, correto...Quantos erros não cometem, quantos atalhos construídos para o fim de tudo, quantas injustiças ainda serão necessárias para se corrigir a miopia de um(a) idealista?

Do alto do morro aspiro todas as alegrias do mundo


Do alto do morro aspiro todas as alegrias do mundo, daqui enxergo as coisas como são: pequenas e finitas, todas as distorções das confusões humanas, valores sem vida, vida sem valor! Os inflamados rebanhos pastam lá embaixo, continuo a assistir a pretensão dessa estupidez, eles olham para cima implorando perdão. O que seriam deles se soubessem da verdade? Que o centro da vida não está além da vida, que desperdiçam confissões aos pastores que se alimentam das ilusões deste rebanho...
O maior desafio do ser humano é o próprio ser, que vive para o conjunto, que se sacrifica para o coletivo, que vive a vida de aluguel que todas religiões lhes impõe.
Comer e beber de todas as refeições impostas até o fim, eis o destino destes seres obedientes, escravos da tirania cristã.

Janaína


Desci pelas encostas escarpadas do inconsciente e me atirei ao mar estrelado dos pensamentos onde o sol plunge sem tocá-los.
Tinha gente como a gente, caras conhecidas de peito amigo, só riso reconhecido.
Em ritmo alucinado o compasso é regido por semideuses em sucessivos ataques cardíacos, convido Janaína* para dançar.
A febre não cessa no embalo contínuo dessa onda que resvala os corais, e por isso é perfeita. Um passeio por esse mar momentaneamente abissal e cristalino. Desperto de um sonho, mas continuo a vivê-lo majestosamente em detalhes, com o sabor a escorrer aos lábios, inundando o consciente como coisa real, e a Janaína ainda dança...


* Dona Janaína é a rainha do mar.

Se eu fosse de teu agrado

E se eu fosse de teu agrado, não seria propositado, e se me chamasse de egoísta por não atender sua expectativa, diria que o meu bem estar não depende de agradar a sua volta, mas essencialmente meu eixo.

Subi as alturas frias


Subi as frias alturas, solitário, sei da verdade e divago sobre a humanidade. O que tem feito ela?
Eu que sou noturno com ramificações diurnas, que prefere a lua ao sol, que se esfola em paixões não concebidas, que se entrega ao prazer com o mais profundo querer e é arrastado pelo refluxo violento das ressacas, rendido em dor. Entregue por completo a experiência mais quente e dolorosa do ser, a viagem onipresente dos sentidos. A aldeia dos prazeres. Memória inapagável de lembrança eterna. Imortalização dos gestos, impulsos, almas, distúrbios de orgias sensoriais. Como se negar aos deleites do querer depois de tê-los nos lábios, mastigá-lo, sugado ao seu último sabor...?
Um ser de insustentável tristeza, invisível diante das irrealizações, que se isola para recompor, que tem o sofrimento por essência a sua natureza, reiniciando o fluxo e refluxo.

Uma lembrança de beira de rio em conversa com meus botões



Olho pra você e sorrio,
não sei se me compreende ou mesmo se te compreendo,
mas é coisa consabida.


Sei que a porção que compreendo agrada:

irresistivelmente doce,

sensivelmente feminina,

perfeitamente mulher,

ainda que - menina.




O resto é mistério a ser saboreado.
Uma lembrança de beira de rio em noite de verão,

murmurando ao mar histórias de um livro aberto.

Acorrentada a pequenas obsessões humanas,

perdida em pensamentos cegos dos sinais de saída,

dores a escorrer pelos olhos ganhando vida em ouvidos dispostos a ecoar algum conforto.

Que de vez em quando sorria,

como se estivesse a suavizar a seriedade dos sentimentos.

Menina mulher que sente e deseja, que se indigna e luta contra corrente,

que se desmancha em amor, que nele se perde,

se encontra e torna a se perder completamente.

Amor, oh L’amour!

Quanta coisa cruza a cabeça

nos fundamentos mais íntimos e plenos desta expressão!


E quanta coisa não se faria por amor?
Um prato cheio para corações inflamados,

que salta ao peito bombeando desejo dentro de desejos,

ideais latentes e febris, quem sabe se realizáveis,

que desesperadamente procuram calor,

que se exaltam em flores e sabores transbordando todos limites do ser...


E para você Que é linda: em traços e gestos,

que sofre demasiadamente a conseqüência de seus véus altruístas,

que se afoga em dor por ter “L’Amour” a flor da pele,

uma criança será concebida em forma de noite -



pra te confortar em estrelas,

que de cima hão de se atirar em série,

desesperadas,

riscando o escuro do céu,

só pra te ver sorrir...


Felizes os que experimentaram desse tempero,

a todos os outros só resta vontade.

E assim me sento

e observo o entardecer da janela de meu quarto,

um pôr do sol de cores acentuadas, típico dos dias de frio.

Levanto-me e aproximo da janela,

quanto mais aprecio suas luzes,

mais se esvai no horizonte distante,

como todas as coisas boas que escorrem pelas mãos.

O universo se reconstrói e as cortinas da noite caem sobre a cidade.

Com absoluta nitidez, recobro meus pensamentos,

percebo as coisas como são,

neste exato momento uma estrela corta o céu em busca do seu sorriso...

A espera do porvir

Eu gosto de café com pimenta, cheiro verde de canela e fruta cítrica de avelã. Madrugo na mangueira, pois o leite nao espera...Vejo o sol nascer deste lado, enquanto o mundo dorme d'outro. Acordo e tudo é real como a preguiça que sinto logo pela manhã, concebo o dia e todas suas expectativas num gole de café.Ando sem parar, chego sempre atrasado para alguma coisa, mas sempre chego! A nuvem de qualquer coisa me incomoda, então assopro para o alto todo tempo fechado, lavo as caras sujas, chuto as bundas que são moles, pinto o dia como numa tela e corro a esperar o porvir. De todas as vontades, somente uma é maior que a outra, só uma é melhor de todas, só uma vai vingar como numa corrida de espermatozóides em direção ao ninho da vida. Hoje estou lúcido e curado de todas as dúvidas, plácido e senhor de si. Revejo todos os valores que tiveram curso até aqui e separo o que me interessa, nada disso presta! Os homens criaram toda mediocridade e sentimento de culpa. Basta estar bem para que outrem nos dirija uma pitada de inveja em forma de pessimismo incurável, a distorção da verdadeira perspectiva que só pode ser enxergada entre pontos envolvidos, e não por expectadores ricos de misérias e pobres de espíritos! Hoje é dia de festa, mas nem todos estão convidados, como se sabe, as portas se abrem aos espirituosos, não para os que não conseguem enxergar diversão na alegria alheia. Fuja daqui, não saia numa saia de borracha e diga que é pneu, sua mascara só engana quem precisa ser enganado, não repita frases prontas seu pedante embotado! O pessimismo é resultado direto de sua miséria bestial, sua revolta contra o mundo...Enxergo nessas pessoas um crime contra a vida, uma limitação da limitação humana, um peso desnecessário ao mundo. Enquanto isso, sigo a aguardar o porvir sem preocupar com os ruídos, sem notar os alheios, sem me incomodar com as distorções dessa transição, olhando para dentro > buscando o mel...

Palavreando

Escrever é mais do que transcrever o que se percebe do mundo, diz mais exatamente como se relaciona com ele. O que importa não é a quantidade de detalhes reunidos num texto, mas essencialmente a seleção dos quais realmente exprimem a totalidade do que deseja transmitir.
Escrever é medir, ainda que sem precisão, a temperatura dos sentimentos, filtrar os sentidos e desenhá-los tais como são. Sobretudo, tornar elementos abstratos em realidade física e perene, característica intrínseca da linguagem escrita. Escrever é ainda, conversar com o mundo e consigo mesmo, dividir energia, viagem coletiva, uma senhora viagem...