domingo, 24 de fevereiro de 2008

Despedida


Estava distraído e permissivo.
A fonte nasceu tão morta
quanto a uma criança da mãe África.
Não tinha para onde correr,
não tinha como fluir.
Secou em cinzas, esvaeceu em poeira.
A noite veio consolar,
em teu seio estrelado,
sua lua minguante
e o grande deserto no qual a fonte se transformou.
Foi um adeus sem despedidas,
Sem oportunidade,
Sem vida.
Mas definitivamente, foi um adeus.

Lisbon Revisited




Não: não quero nada.
Já disse que não quero nada.
Não me venham com conclusões!
A única conclusão é morrer.
Não me tragam estéticas!
Não me falem em moral!
Tirem-me daqui a metafisica!
Não me apregoem sistemas completos, não me enfileirem conquistas
Das ciências (das ciências, Deus meu, das ciências!) ­
Das ciências, das artes, da civilização moderna!
Que mal fiz eu aos deuses todos?
Se têm a verdade, guardem-na!
Sou um técnico, mas tenho técnica só dentro da técnica.
Fora disso sou doido, com todo o direito a sê-lo.
Com todo o direito a sê-lo, ouviram?
Não me macem, por amor de Deus!
Queriam-me casado, fútil, quotidiano e tributável?
Queriam-me o contrário disto, o contrário de qualquer coisa?
Se eu fosse outra pessoa, fazia-lhes, a todos, a vontade.
Assim, como sou, tenham paciência!
Vão para o diabo sem mim,
Ou deixem-me ir sozinho para o diabo!
Para que havemos de ir juntos?
Não me peguem no braço!
Não gosto que me peguem no braço.
Quero ser sozinho.Já disse que sou sozinho!
Ah, que maçada quererem que eu seja de companhia!
Ó céu azul ­ o mesmo da minha infância ­,
Eterna verdade vazia e perfeita!
Ó macio Tejo ancestral e mudo,
Pequena verdade onde o céu se reflecte!
Ó mágoa revisitada, Lisboa de outrora de hoje!
Nada me dais, nada me tirais, nada sois que eu me sinta.
Deixem-me em paz! Não tardo, que eu nunca tardo
...E enquanto tarda o Abismo
e o Silêncio quero estar sozinho!
(1923) Pessoa

Encontro


Encontrei-me caminhando pelas ruas
de uma confusão sem lar nem saídas,
acordei de um sonho dos primeiros passos
de uma vida ainda não vivida,
dos acordes tecidos em ouro,
viajando ouvidos,
buscando almas aladas
a dançar com os ventos.
Voz dos instintos primários!
Que na revoada das sensações,
grita escandalosamente seu bel-prazer,
ecoando sonoramente no vale dos sentidos...
Folhas e crianças libertam seus espíritos em música.
Fluindo na cadência cardíaca de suas batidas,
Crescentes,
Ofegantes,
em notas lançadas ao ar.
Uma reunião de espíritos livres pulsa em arena mística,
transbordando,
continua e superiormente.
Energia que brota
em notas perfeitas,
num ambiente perfeito,
eletrizando,
comandando os passos.
Respira-se até a raiz,
até sua última margem,
a beira d’um abismo de sentimentos musicais,
mergulhando profundamente em si próprio,
verticalmente,
iluminando,
despindo-se.
"Ver revolutear essas almas aladas e loucas, encantadoras e buliçosas...Eu só poderia crer num Deus que soubesse dançar."

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2008

Homines Religiosi

Quem observou bem o mundo, adivinha facilmente quanta sabedoria existe no fato dos homens serem superficiais. O instinto de conservação ensina rapidamente a ser leviano, volúvel e falso. Encontra-se cá e lá uma adoração apaixonada e exagerada pelas “formas puras” tanto entre os pensadores, quanto entre os artistas; mas, sem dúvida, aquele que acha tão necessário o culto a superfície deve ter feito algumas tentativas mal sucedidas de ver sob a mesma. E ainda existe um grupo em relação com estes cérebros inflamados, filhos dos artistas natos, para os quais não existe outra forma de gozar a vida além da alteração de sua imagem ( de certa forma, penosa vingança contra a vida). Poderia se deduzir o grau ou a medida em que lhes é detestável a vida de acordo com o modo pelo qual desejam falsear sua imagem, diluí-la, transcendê-la, divinizá-la. O temor profundo de cair num pessimismo incurável obriga a aferrar-se a uma interpretação religiosa da existência. O instinto teme a verdade que chega ao homem antes que este tenha se tornado suficientemente forte, duro e artista. Neste aspecto, a compaixão, a “vida em Deus” apareceriam como o produto mais refinado e esquisito do medo à verdade, como uma devoção e embriaguez de artista ante a mais sistemática de todas as falsificações. Possivelmente jamais tenha havido meio mais eficaz para embelezar o homem que a piedade; é ela que o transforma em arte, em superfície, em jogo de cores, bondade, chegando até a deixar de sofrer. Assim, pois, poderia se considerar a todos esses artistas como homines religiosi do mais alto grau.
Nietzsche

domingo, 10 de fevereiro de 2008

A alma

A alma que possui mais longa escada e que mais pode descer a alma mais ilimitada,
que pode mais completamente perder-se nela própria,
a que é filha da Necessidade e que com prazer se entrega ao Destino;
a alma que é um dever a que possuída profundamente de forte querer e desejo,
quer neles entrar mais fundamente,
aquela que foge a si própria e que regressa a si própria percorrendo o mais vasto ciclo.
A alma entre todas,

a mais sábia é que a loucura suavemente chama,
aquela que mais se ama a si própria, na qual todas as coisas tem seu ascender e declinar,
seu fluxo e seu refluxo...

Nietzsche

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2008

Tabacaria

Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso,
tenho em mim todos os sonhos do mundo.

Janelas do meu quarto,
Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é
(E se soubessem quem é, o que saberiam?),
Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
Real, impossivelmente real,

certa, desconhecidamente certa,
Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,
Com a morte a por umidade nas paredes e cabelos brancos nos homens,
Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.


Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
E não tivesse mais irmandade com as coisas
Senão uma despedida,
tornando-se esta casa e este lado da rua
A fileira de carruagens de um comboio,
e uma partida apitada
De dentro da minha cabeça,
E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.
Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu.
Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
À Tabacaria do outro lado da rua,
como coisa real por fora,
E à sensação de que tudo é sonho,
como coisa real por dentro.
Falhei em tudo.

Como não fiz propósito nenhum,
tavez tudo fosse nada.

A aprendizagem que me deram,
Desci dela pela janela das traseiras da casa.
Fui até ao campo com grandes propósitos.
Mas lá encontrei só ervas e árvores,
E quando havia gente era igual à outra.
Saio da janela, sento-me numa cadeira.
Em que hei de pensar?
Que sei eu do que serei,
eu que não sei o que sou?
Ser o que penso?
Mas penso tanta coisa!
E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos!
Gênio?
Neste momento
Cem mil cérebros se concebem em sonho gênios como eu,
E a história não marcará, quem sabe?, nem um,
Nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras.
Não, não creio em mim.
Em todos os manicômios há doidos malucos com tantas certezas!
Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo?
Não, nem em mim...
Em quantas mansardas e não-mansardas do mundo
Não estão nesta hora gênios-para-si-mesmos sonhando?
Quantas aspirações altas e nobres e lúcidas
-Sim, verdadeiramente altas e nobres e lúcidas -,
E quem sabe se realizáveis,
Nunca verão a luz do sol real nem acharão ouvidos de gente?
O mundo é para quem nasce para o conquistar
E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão.

Tenho sonhado mais que o que
Napoleão fez.
Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do que Cristo,

Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu.
Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda,
Ainda que não more nela;
Serei sempre o que não nasceu para isso;
Serei sempre só o que tinha qualidades;
Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta,
E cantou a cantiga do Infinito numa capoeira,
E ouviu a voz de Deus num poço tapado.
Crer em mim?
Não, nem em nada.
Derrame-me a
Natureza sobre a cabeça ardente
O seu sol, a sua chuva, o vento que me acha o cabelo,
E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha.

Escravos cardíacos das estrelas,
Conquistamos todo o mundo antes de nos levantar da cama;
Mas acordamos e ele é opaco,

Levantamo-nos e ele é alheio,
Saímos de casa e ele é a terra inteira,
Mais o sistema solar e a Via Láctea e o Indefinido.
(Come chocolates, pequena;Come chocolates!
Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.
Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.
Come, pequena suja, come!
Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!
Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folha de estanho,
Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.)
Mas ao menos fica da amargura do que nunca serei
A caligrafia rápida destes versos,
Pórtico partido para o Impossível.
Mas ao menos consagro a mim mesmo um desprezo sem lágrimas,
Nobre ao menos no gesto largo com que atiro
A roupa suja que sou, em rol, pra o decurso das coisas,
E fico em casa sem camisa.
(Tu que consolas, que não existes e por isso consolas,
Ou deusa grega, concebida como estátua que fosse viva,
Ou patrícia romana, impossivelmente nobre e nefasta,
Ou princesa de trovadores, gentilíssima e colorida,
Ou marquesa do século dezoito, decotada e longínqua,
Ou cocote célebre do tempo dos nossos pais,
Ou não sei quê moderno - não concebo bem o quê -
Tudo isso, seja o que for, que sejas, se pode inspirar que inspire!
Meu coração é um balde despejado.
Como os que invocam espíritos invocam espíritos invoco
A mim mesmo e não encontro nada.
Chego à janela e vejo a rua com uma nitidez absoluta.
Vejo as lojas, vejo os passeios, vejo os carros que passam,
Vejo os entes vivos vestidos que se cruzam,
Vejo os cães que também existem,
E tudo isto me pesa como uma condenação ao degredo,
E tudo isto é estrangeiro, como tudo.)
Vivi, estudei, amei e até cri,
E hoje não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu.
Olho a cada um os andrajos e as chagas e a mentira,
E penso: talvez nunca vivesses nem estudasses nem amasses nem cresses
(Porque é possível fazer a realidade de tudo isso sem fazer nada disso);
Talvez tenhas existido apenas, como um lagarto a quem cortam o rabo
E que é rabo para aquém do lagarto remexidamente
Fiz de mim o que não soube
E o que podia fazer de mim não o fiz.
O dominó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada à cara.
Quando a tirei e me vi ao espelho,
Já tinha envelhecido.
Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado.
Deitei fora a máscara e dormi no vestiário
Como um cão tolerado pela gerência
Por ser inofensivo
E vou escrever esta história para provar que sou sublime.
Essência musical dos meus versos inúteis,
Quem me dera encontrar-me como coisa que eu fizesse,
E não ficasse sempre defronte da
Tabacaria de defronte,
Calcando aos pés a consciência de estar existindo,
Como um tapete em que um bêbado tropeça
Ou um capacho que os ciganos roubaram e não valia nada.
Mas o Dono da Tabacaria chegou à porta e ficou à porta.
Olho-o com o desconforto da cabeça mal voltada
E com o desconforto da alma mal-entendendo.
Ele morrerá e eu morrerei.
Ele deixará a tabuleta, eu deixarei os versos.
A certa altura morrerá a tabuleta também, os versos também.
Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta,
E a língua em que foram escritos os versos.
Morrerá depois o planeta girante em que tudo isto se deu.
Em outros satélites de outros sistemas qualquer coisa como gente
Continuará fazendo coisas como versos e vivendo por baixo de coisas como tabuletas,
Sempre uma coisa defronte da outra,
Sempre uma coisa tão inútil como a outra,
Sempre o impossível tão estúpido como o real,
Sempre o mistério do fundo tão certo como o sono de mistério da superfície,
Sempre isto ou sempre outra coisa ou nem uma coisa nem outra.
Mas um homem entrou na Tabacaria (para comprar tabaco?)
E a realidade plausível cai de repente em cima de mim.
Semiergo-me enérgico, convencido, humano,
E vou tencionar escrever estes versos em que digo o contrário.
Acendo um cigarro ao pensar em escrevê-los
E saboreio no cigarro a libertação de todos os pensamentos.
Sigo o fumo como uma rota própria,
E gozo, num momento sensitivo e competente,
A libertação de todas as especulações
E a consciência de que a metafísica é uma conseqüência de estar mal disposto.
Depois deito-me para trás na cadeira
E continuo fumando.
Enquanto o Destino mo conceder, continuarei fumando.
(Se eu casasse com a filha da minha lavadeiraTalvez fosse feliz.)
Visto isto, levanto-me da cadeira. Vou à janela.
O homem saiu da Tabacaria (metendo troco na algibeira das calças?).
Ah, conheço-o; é o Esteves sem metafísica.
(O Dono da Tabacaria chegou à porta.)
Como por um instinto divino o
Esteves voltou-se e viu-me.
Acenou-me adeus, gritei-lhe Adeus ó Esteves!,
e o universo
Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança,
e o Dono da Tabacaria sorriu.


Alváro de Campos

Por todas as vezes que o seu sorrisso desabrochar


Por todas as vezes que o seu sorriso desabrochar,
o coração consentirá
invasão de portas abertas.
Quando o momento se for.
Não entristecerei,
nem lamentarei.
Hei de compreender que não são as mesmas alegrias.
Embora, ambas sejam alegrias de chegada e partida.
E o acerto sempre se dará na página seguinte.
Onde o erro se desdobra.
O sentimento se reinventa.
Alimentando-se de si próprio,
Multiplicando-se desmesuradamente.
Brotando de si
para si mesmo.
O corpo não se basta
à alma inflamada
regada de seus sabores orgíacos;
Que se auto-consumem,
Mutilando conceitos;
Cunhando versos;
Sobrando espaço;
Cobrindo o tempo.

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2008

Autopsicografia


O poeta é um fingidor.

Finge tão completamente

Que chega a fingir que é dor

A dor que deveras sente.

E os que lêem o que escreve,

Na dor lida sentem bem,

Não as duas que ele teve,

Mas só a que eles não têm.

E assim nas calhas de roda Gira,

a entreter a razão,

Esse comboio de corda

Que se chama coração.


P

Nunca amamos ninguém


Nunca amamos ninguém. Amamos, tão-somente, a ideia que fazemos de alguém. É a um conceito nosso - em suma, é a nós mesmos - que amamos. Isso é verdade em toda a escala do amor. No amor sexual buscamos um prazer nosso dado por intermédio de um corpo estranho. No amor diferente do sexual, buscamos um prazer nosso dado por intermédio de uma ideia nossa.
Pessoa

A.Cristo


Nas coisas de espírito é preciso ser honesto até a dureza, para apenas suportar minha seriedade, a minha paixão. É preciso estar habituado a viver nos montes – a ver abaixo de si a deplorável tagarelice atual da política e do egoísmo das nações. É preciso haver se tornado indiferente, é preciso jamais perguntar se a verdade é útil, se ela vem a ser uma fatalidade para alguém... Uma predileção, própria da força, por perguntas para as quais ninguém hoje tem coragem; a CORAGEM PARA O PROIBIDO; a predestinação ao labirinto. Uma experiência de sete solidões. Novos ouvidos para nova música. Novos olhos para o mais distante. Uma nova consciência para verdades que até agora permaneceram mudas. E a vontade para economia de grande estilo: manter junto sua força, seu entusiasmo... A reverência a si mesmo; o amor a si; a incondicional liberdade ante de si mesmo...
O resto é apenas humanidade. É preciso ser superior a humanidade pela força, pela altura da alma – pelo desprezo...

Friedrich Nietzsche

terça-feira, 5 de fevereiro de 2008

Olhei para o teto com olhos pesados


Olhei para o teto com olhos pesados. Tudo se resumia ferozmente em nunca dar um primeiro grito – um primeiro grito desencadeia todos os outros, o primeiro grito ao nascer desencadeia todos os outros, o primeiro grito ao nascer desencadeia uma vida, se eu gritasse acordaria milhares de seres gritantes que iniciariam pelos telhados um coro de gritos de horror. Se eu gritasse desencadearia a existência – a existência de quê? A existência do mundo. Com reverência eu temia a existência do mundo para mim.

L

Entrei numa escuridão indirecionável

Entrei numa escuridão indirecionável de floresta, arrastado pela violência de um sentimento que ataca por trás do consciente, derrubando toda possibilidade de defesa. Experimentei em seu dorso a delicadeza de sua textura e absorvi o olhar de dentro de minha cabeça. Fui invadido por uma onda de carinho e tudo que eu queria era acomodá-la nos braços com a ternura que se aplica as crianças. Surtei em seus traços e me agarrei a sua voz. Quis me entregar a um lugar que talvez não me fosse de direito, mas que a vontade era dirigida. Assassinei princípios nada morais que em mim habitam para fazer uso das lentes da quintessência. Tinha uma aparência de menina, mas era uma mulher maior do que os olhos humanos pudessem captar. Alimentei gritos adormecidos dos encontros de almas, sussurrei as possibilidades, esbarrei no recobrar de minha consciência e desesperei com a aparência de tudo aquilo.

Entendia eu



Entendia eu que aquilo que eu experimentara, aquele núcleo de rapacidade infernal, era o que se chama de amor? Mas – amor neutro?
Amor neutro. O neutro soprava. Eu estava atingindo o que havia procurado a vida toda: aquilo que é a identidade mais última e que eu havia chamado de inexpressivo. Fora isso o que sempre estivera nos meus olhos no retrato: uma alegria inexpressiva, um prazer que não sabe o que é prazer – um prazer delicado demais para a minha grossa humanidade que sempre fora feita de conceitos grossos.


L

O que existe


O que existe, e que é apenas um pedaço de coisa, no entanto tenho de pôr a mão nos olhos contra o opaco dessa coisa. Ah, a violenta inconsciência amorosa do que existe ultrapassa a possibilidade de minha consciência. Tenho medo de tanta matéria – a matéria vibra de atenção, vibra de processo, vibra de atualidade inerente. O que existe bate em ondas fortes contra o grão inquebrantável que sou, e este grão rola entre abismos de vagalhões tranqüilos de existência, rola e não se dissolve, esse grão-semente.
De que sou eu a semente? Semente de coisa, semente de existência, semente desses mesmos vagalhões de amor-neutro. Eu, pessoa sou um germe. O germe é apenas sensível – esta é sua única particular inerência. O germe dói. O germe é ávido e esperto. Minha avidez é a minha mais inicial fome: sou puro porque sou ávido.

L

Parece que vou ter que desistir


Parece que vou ter que desistir de tudo o que deixo atrás dos portões. E sei, eu sabia, que se atravessasse os portões que estão sempre abertos, entraria no seio da natureza.
Eu sabia que entrar não é pecado. Mas é arriscado como a morrer. Assim como se morre sem se saber para onde, e esta é a maior coragem de um corpo. Entrar só era pecado porque era a danação de minha vida, para a qual eu depois não pudesse talvez mais regredir.

L

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2008

A primeira vibração


Alcançar a célula ovo dos sentidos,
Ouvindo sentimentos inaudíveis,
Encarando os olhos de um sorriso;
Descobrir a face de uma vontade não compreendida,
mas sentida...

Porque é sentindo que se casa com o que se é,
E não casando com o que esperam de você.
Em algum lugar entre o sonho e o real,
Um ponto de ebulição é despertado
e nunca mais voltará a ser o que era.

Não existe nada mais humano que o medo;
De mudar;
De caminhar;
De se conhecer...

Como não existe nada mais divino que descobrir,
Que é na escuridão que o cerne de todas as coisas habita,
Que é na vida incerta que as cores brilham profusas,
Que a certeza das coisas não nos revela nada.

E toda conquista de expansão não depende do saber.
Mas do sentir, um sentir intra-vertical,
alimentando-se da própria carne,
saciando alma lenta e devastadoramente,
sugando forças dos poros de dentro para fora da alma,
chegando a tocar a primeira vibração do sentir na raiz de sua extensão.
soltando-se em sua transformação por completo.

Avançar num ponto onde não haverá retorno para ser o que se era,
suspender entre o que se foi e conseguiu chegar a ser...

domingo, 3 de fevereiro de 2008

Não

Não, é a balada de um "sim" ressentido...

Abri as cortinas dos olhos

Abri as cortinas dos olhos e
me atirei ao ar buscando liberdade.
Escorri pelo chão como se fosse chuva,
cantarolei alguma coisa enquanto passava.

Para onde passava eu?

Não era outra dimensão nem outro mundo,
era outro eu adormecido que me pareceu estranho,
alheio.

Como não tinha consciência de outro eu,
vi naquilo o paradoxo de minha própria aberração.
Por fim,
descobri que joguei tanto adubo
por cima de meu aprendizado
que minhas flores não se abriram,
as idéias eram cinzas como um dia fechado.
Foi numa manhã de domingo que tudo se iluminou.