Quem observou bem o mundo, adivinha facilmente quanta sabedoria existe no fato dos homens serem superficiais. O instinto de conservação ensina rapidamente a ser leviano, volúvel e falso. Encontra-se cá e lá uma adoração apaixonada e exagerada pelas “formas puras” tanto entre os pensadores, quanto entre os artistas; mas, sem dúvida, aquele que acha tão necessário o culto a superfície deve ter feito algumas tentativas mal sucedidas de ver sob a mesma. E ainda existe um grupo em relação com estes cérebros inflamados, filhos dos artistas natos, para os quais não existe outra forma de gozar a vida além da alteração de sua imagem ( de certa forma, penosa vingança contra a vida). Poderia se deduzir o grau ou a medida em que lhes é detestável a vida de acordo com o modo pelo qual desejam falsear sua imagem, diluí-la, transcendê-la, divinizá-la. O temor profundo de cair num pessimismo incurável obriga a aferrar-se a uma interpretação religiosa da existência. O instinto teme a verdade que chega ao homem antes que este tenha se tornado suficientemente forte, duro e artista. Neste aspecto, a compaixão, a “vida em Deus” apareceriam como o produto mais refinado e esquisito do medo à verdade, como uma devoção e embriaguez de artista ante a mais sistemática de todas as falsificações. Possivelmente jamais tenha havido meio mais eficaz para embelezar o homem que a piedade; é ela que o transforma em arte, em superfície, em jogo de cores, bondade, chegando até a deixar de sofrer. Assim, pois, poderia se considerar a todos esses artistas como homines religiosi do mais alto grau.
Nietzsche

2 comentários:
Nietzsche sempre!
...para apagar os equívocos das impressões e vice versa!
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