terça-feira, 29 de janeiro de 2008

Quando os instintos lhe tomam as rédeas


Quando os instintos lhe tomam as rédeas,
arrastando desenfreadamente em fluxo torrente,
onde a brisa, sem ser convidada,
é bem vinda escorrendo suavemente contra o físico,
rebelando cabelos banhados somente de sol e lua.

A vontade superior, aquela que não pode ser controlada,
e do avesso se vira,
em intensidade e febre de querer.
Sofrendo ter que partir por desconhecer se ao voltar,
terá o mesmo lugar.
Dor que não se faz compreender
para os que já viveram,
somente para os que ainda vivem a indizível aflição que escurece a alma.

Eu que sempre fui luz,
hoje sou trevas, ou luz ausente...
Abro os olhos e não enxergo nada,
fecho e sinto o cheiro,
depois o calor e finalmente o sabor,
tudo se torna claro novamente....
Recordo porque sofrer não me deixa esquecer que não desejo esquecer,
enquanto houver vida,
haverá possibilidade,
enquanto houver possibilidade haverá vida.
É necessário ser trevas para poder iluminar-se!

quarta-feira, 23 de janeiro de 2008

O necessário aprendizado com os artistas


Dispomos de quais meios para tornar as coisas belas, atraentes e desejáveis para nós, quando não o são?...Parece-me que, na verdade, nunca o são em si. Temos, então, receitas a aprender com o médico, que adoça, por exemplo, os amargos ou que acrescenta açúcar e vinho às suas misturas; e temos, ainda mais a aprender com o artista, que no fundo não cessa aplicar neste gênero de invenções e artifícios. Afastar-se dos objetos até fazer desaparecer um bom numero dos seus pormenores e obrigar o olhar a acrescentar-lhe outros para que possa ainda vê-los; escondê-los com um ângulo de maneira a descobrir apenas parte; dispô-los de tal modo que se entremascarem em parte e só permitam que o olhar mergulhe na sua perspectiva; olhá-los com vidros de cor ou a luz do sol poente; dar-lhes superfície, uma pele, que não seja totalmente transparente; tudo isso nos é necessário aprender com os artistas e, quanto ao resto, ser mais sábios do que eles; uma vez que a força sutil se detém geralmente no ponto onde acaba a arte e começa a vida. Porém, nós queremos ser os poetas e autores da nossa vida; e, a princípio, nas mais pequenas coisas e nas íntimas banalidades do cotidiano!



Frederico, o incompreendido

quinta-feira, 17 de janeiro de 2008

Quero ser aquele



Quero ser aquele que
um dia desenhou a luz nas palavras,
cruzou os olhos nas janelas
e encontrou-se deitado num dia de sol à beira mar.
Quero martelar minhas mensagens,
sentir o eco do espírito da vida em abundância,
induzir aos olhos clínicos a profusão das cores,
a metamorfose das nuvens estreladas,
vindas de uma fonte de infinita vibração
onde a vida eclode desde sua primeira respiração.
Desejo os danos colaterais;
Uma expansão indefinida da alma lasciva,
Contorcendo-se em auto-degustação,
na revelação de si,
da queda das cortinas dos valores mundanos...
Hoje serei aquele que tenta,
que se afasta e aproxima das perspectivas
em todos prismas,
que erra incansavelmente,
que por isso também acerta,
continuando a dançar com os ventos em todas direções.
Quero acordar e voltar pra mim, como a água volta para terra
num dia de chuva;
Despertando todos os cheiros molhados de vida.

segunda-feira, 14 de janeiro de 2008

Passos da Cruz

Esqueço-me das horas transviadas o
Outono mora mágoas nos outeiros
E põe um roxo vago nos ribeiros...
Hóstia de assombro a alma, e toda estrada...
Aconteceu-me esta paisagem, fadas
De sepulcros a orgíaco...
Trigueiros Os céus da tua face, e os derradeiros
Tons do poente segredam nas arcadas...
No claustro seqüestrando a lucidez
Um espasmo apagado em ódio à ânsia
Põe dias de ilhas vistas do convés
No meu cansaço perdido entre os gelos
E a cor do outono é um funeral de apelos
Pela estrada da minha dissonância...

Cancioneiro

sexta-feira, 11 de janeiro de 2008

Se cada dia cai


Se cada dia cai,
dentro de cada noite,
há um poço onde a claridade está presa.
há que sentar-se na beira do poço da sombra
e pescar luz caída com paciência.

P. Neruda

quinta-feira, 10 de janeiro de 2008

Se eu morrer novo...


Se eu morrer novo,
Sem poder publicar livro nenhum,
Sem ver a cara que têm os meus versos em letra impressa,
Peço que, se se quiserem ralar por minha causa,
Que não se ralem.
Se assim aconteceu, assim está certo.
Mesmo que os meus versos nunca sejam impressos,
Eles lá terão a sua beleza, se forem belos.
Mas eles não podem ser belos e ficar por imprimir,
Porque as raízes podem estar debaixo da terra
Mas as flores florescem ao ar livre e à vista.
Tem que ser assim por força.
Nada o pode impedir.
Se eu morrer muito novo, oiçam isto:
Nunca fui senão uma criança que brincava.
Fui gentio como o sol e a água,
De uma religião universal que só os homens não têm.
Fui feliz porque não pedi cousa nenhuma,
Nem procurei achar nada,
Nem achei que houvesse mais explicação
Que a palavra explicação não ter sentido nenhum.
Não desejei senão estar ao sol ou à chuva — Ao sol quando havia sol
E à chuva quando estava chovendo (E nunca a outra cousa),
Sentir calor e frio e vento,
E não ir mais longe.
Uma vez amei, julguei que me amariam,
Mas não fui amado.
Não fui amado pela única grande razão — Porque não tinha que ser.
Consolei-me voltando ao sol e à chuva,
E sentando-me outra vez à porta de casa.
Os campos, afinal, não são tão verdes para os que são amados
Como para os que o não são.
Sentir é estar distraído.

Albert Caiu no bueiro

terça-feira, 8 de janeiro de 2008

Sábio

Sábio é o que se contenta com o espetáculo do mundo,

E ao beber nem recorda
Que já bebeu na vida,
Para quem tudo é novo
E imarcescível sempre.

Coroem-no pâmpanos, ou heras, ou rosas volúteis,

Ele sabe que a vida
Passa por ele e tanto
Corta à flor como a ele
De Átropos a tesoura.

Mas ele sabe fazer que a cor do vinho esconda isto,

Que o seu sabor orgíaco
Apague o gosto às horas,
Como a uma voz chorando
O passar das bacantes.

E ele espera, contente quase e bebedor tranqüilo,
E apenas desejando
Num desejo mal tido
Que a abominável onda
O não molhe tão cedo.

Richard Kings

sexta-feira, 4 de janeiro de 2008

Hora Absurda

O TEU SILÊNCIO é uma nau com tôdas as velas pandas...
Brandas, as brisas brincam nas flâmulas, teu sorriso...
E o teu sorriso no teu silêncio é as escadas e as andas
Com que me finjo mais alto e ao pé de qualquer paraiso...
Meu coração é uma ânfora que cai e que se parte...
O teu silêncio recolhe-o e guarda-o, partido, a um canto...
Minha idéia de ti é um cadáver que o mar traz à praia...,
e entanto Tu és a tela irreal em que erro em côr a minha arte...
Abre tôdas as portas e que o vento varra a idéia
Que temos de que um fumo perfuma de ócio os salões...
Minha alma é uma caverna enchida p'la maré cheia,
E a minha idéia de te sonhar uma caravana de histriões...
Chove ouro baço, mas não no lá-fora...
É em mim...Sou a Hora,
E a Hora é de assombros e tôda ela escombros dela...
Na minha atenção há uma viúva pobre que nunca chora...
No meu céu interior nunca houve uma única estrela...
Hoje o céu é pesado como a idéia de nunca chegar a um pôrto...
A chuva miúda é vazia...A Hora sabe a ter sido...
Não haver qualquer coisa como leitos para as naus!...Absorto
Em se alhear de si, teu olhar é uma praga sem sentido...
Tôdas as minhas horas são feitas de jaspe negro,
Minhas ânsias tôdas talhadas num mármore que não há,
Não é alegria nem dor esta dor com que me alegro,
E a minha bondade inversa não é nem boa nem má...
Os feixes dos lictores abriram-se à beira dos caminhos...
Os pendões das vitórias medievais nem chegaram às cruzadas...
Puseram in-fólios úteis entre as pedras das barricadas...
E a erva cresceu nas vias férreas com viços daninhos...
Ah, como esta hora é velha!... E tôdas as naus partiram!
Na praia só um cabo morto e uns restos de vela falam
De longe, das horas do Sul, de onde os nossos sonhos tiram
Aquela angústia de sonhar mais que até para si calam...
O palácio está em ruínas...
Dói ver no parque o abandono
Da fonte sem repuxo...
Ninguém ergue o olhar da estrada
E sente saudade de si ante aquêle lugar-outono...
Esta paisagem é um manuscrito com a frase mais bela cortada...
A doida partiu todos os candelabros glabros,
Sujou de humano o lago com cartas rasgadas, muitas...
E a minha alma é aquela luz que não mais haverá nos candelabros...
E que querem ao lago aziago minhas ânsias, brisas fortuitas?...
Por que me aflijo e me enfermo?...
Deitam-se nuas ao luar
Tôdas as ninfas...
Veio o sol e já tinham partido...
O teu silêncio que me embala é a idéia de naufragar,
E a idéia de a tua voz soar a lira dum Apolo fingido...
Já não há caudas de pavões tôdas olhos nos jardins de outrora...
As próprias sombras estão mais tristes...Ainda
Há rastros de vestes de aias (parece) no chão, e ainda chora
Um como que eco de passos pela alamêda que eis finda...
Todos os ocasos fundiram-se na minha alma...
As relvas de todos os prados foram frescas sob meus pés frios...
Secou em teu olhar a idéia de te julgares calma,
E eu ver isso em ti é um pôrto sem navios...
Ergueram-se a um tempo todos os remos...pelo ouro das searas
Passou uma saudade de não serem o mar...
Em frente
Ao meu trono de alheamento há gestos com pedras raras...
Minha alma é uma lâmpada que se apagou e ainda está quente...
Ah, e o teu silêncio é um perfil de píncaro ao sol!
Tôdas as princesas sentiram o seio oprimido...
Da última janela do castelo só um girassol
Se vê, e o sonhar que há outros põe brumas no nosso sentido...
Sermos, e não sermos mais!... Ó leões nascidos na jaula!...
Repique de sinos para além, no Outro Vale... Perto?...
Arde o colégio e uma criança ficou fechada na aula...
Por que não há de ser o Norte e Sul?... O que está descoberto?...
E eu deliro... De repente pauso no que penso...Fito-te...
E o teu silêncio é uma cegueira minha...Fito-te e sonho...
Há coisas rubras e cobras no modo como medito-te,
E a tua idéia sabe à lembrança de um sabor de medonho...
Para que não ter por ti desprêzo? Por que não perdê-lo?...
Ah, deixa que eu te ignore...O teu silêncio é um leque ---
Um leque fechado, um leque que aberto seria tão belo, tão belo,
Mas mais belo é não o abrir, para que a Hora não peque...
Gelaram tôdas as mãos cruzadas sôbre todos os peitos....
Murcharam mais flôres do que as que havia no jardim...
O meu amar-te é uma catedral de silêncio eleitos,
E os meus sonhos uma escada sem princípio mas com fim...
Alguém vai entrar pela porta...Sente-se o ar sorrir...
Tecedeiras viúvas gozam as mortalhas de virgens que tecem...
Ah, o teu tédio é uma estátua de uma mulher que há de vir,
O perfume que os crisântemos teriam, se o tivessem...
É preciso destruir o propósito de tôdas as pontes,
Vestir de alheamento as paisagens de tôdas as terras,
Endireitar à fôrça a curva dos horizontes,
E gemer por ter de viver, como um ruído brusco de serras...
Há tão pouca gente que ame as paisagens que não existem!...
Saber que continuará a haver o mesmo mundo amanhã ---
como nos desalegra!...
Que o meu ouvir o teu silêncio não seja nuvens que atristem
O teu sorriso, anjo exilado, e o teu tédio, auréola negra...
Suave, como ter mãe e irmãs, a tarde rica desce...
Não chove já, e o vasto céu é um grande sorriso imperfeito...
A minha consciência de ter consciência de ti é uma prece,
E o meu saber-te a sorrir é uma flor murcha a meu peito...
Ah, se fôssemos duas figuras num longínquo vitral!...
Ah, se fôssemos as duas côres de uma bandeira de glória!...
Estátua acéfala posta a um canto, poeirenta pia batismal,
Pendão de vencidos tendo escrito ao centro êste lema --- Vitória!
O que é que me tortura?... Se até a tua face calma
Só me enche de tédios e de ópios de ócios medonhos...
Não sei...Eu sou um doido que estranha a sua própria alma...
Eu fui amado em efígie num país para além dos sonhos...
4-7-1913
Ferdinand persona