quarta-feira, 30 de maio de 2007

Sentir a vida como quem procura revelação


Sentir a vida aspirando conhecimento direto, revelação, não como quem acha que já sabe e não despende aperfeiçoamento, mas com fome de todos os dias. Perseguir o conhecimento através da experimentação mais íntima e completa, em transe musical, arranjos sublimes reluzindo em notas arrebatadoras...Saborear a vida em abocanhadas, deliciosamente quente, irresistivelmente doce, de dentro pra fora, de fora pra dentro, do avesso...

Amar sem limites, até onde a curva dos desejos riscar o horizonte dos sentidos, onde o sol plunge ardendo pele que grita em silêncio, que em erupção transborda torrentes químicas absortas em sentimentos genuínos. Inconseqüente, em queda livre, fora de controle. Beber a vida aos goles ou de uma vez se possível for. Passear pelo corpo em todas suas possibilidades, preencher todos espaços até sua indivisibilidade, se perder no tempo, afogar-se em si próprio. Sentir a sedução do céu pela gentileza da chuva e do vento escorrendo ao rosto, tome a realidade de tudo isso para si com delicadeza maternal.

Sorrir por existir e não ser expectador, expressar a beleza de tudo isso em música, porque sentir é uma expressão musical e viver assim, é ser verdadeiramente livre.Dançar desavergonhadamente como as coisas que flutuam livremente no ar, manobrar as notas, reconhecer que a vida é cíclica e tudo que desaparece é absolutamente necessário para concepção de outras, nem melhor, nem pior, simplesmente um fenômeno de renovação. O dia tem que esvaecer para nascer uma nova bela noite!

Compreender que as melhores experiências que viveu, não são mais do que melhores lembranças, a vida é daqui pra frente não daqui pra trás. E tudo que deixar de fazer hoje não terá mais oportunidade amanhã. Quando estiver nos seus 60 anos, só vai poder lamentar o que deixou de fazer na sua juventude, e o seu corpo já não terá mais disposição para emoções desperdiçadas.

Escutar as coisas com o coração, não estrangule vontades, não existe moral que seja mais importante que suas necessidades. Não se preocupe demais, isso não altera em nada o resultado definitivo dos problemas. Por fim, é necessário que se tenha espírito pra se viver assim, que se tenha uma saúde despojada de máscara, que seja forte suficiente para quebrar paradigmas, para chegar a ser o que se é...

Devaneios

...Parece que desce, mas sobe a ladeira como quem tem muita pressa de chegar ao seu destino. Passeando pelos sentidos, nos sentimos vivos e deixamos de apenas existir. Do sentimento maior nascem todas as outras coisas, todos os outros vivos que se tem conhecimento. Quem só enxerga o que os olhos alcançam, não dança na chuva, não se torna música, não viaja, e justamente por isso, não sente falta. Somos pássaro novo aprendendo a voar, isso explica a falta de prática nas aterrissagens, sobretudo, porque tanto queremos voar... Sabemos que, do alto, enxergamos tudo o que os outros não vêem, contudo, temos problemas para enxergamos de perto. Que ironia! Confusão para uma necessidade demasiadamente humana de buscar uma finalidade para as coisas. O amor não tem finalidade, nem o câncer do idealismo, procura nas coisas apenas o sentir e basta-se ao viver assim. Se eles nos chamam de loucos, os chamo de seres sem vida, se procuram razão para existir é por serem retilíneos demais. Sem terem orientação melhor, não por falta de opção, mas por ausência de uma consciência adequada para focalizar sua miopia, são seres fadados a unicamente existir, sem sentir o pulsar da vida. Eu que existo, e aprendi a sentir, por conseqüência, pulsar. Abro os braços e saio do chão, como um balão inflado e cheio de si, sobrevoando os campos num percurso sem fim, guiado pelos instintos seguindo um caminho feito de flores e espinhos também. Não basta o saber/conhecer por imaginação, pois uma coisa é saber, outra é experimentar. “ O sabor da fruta não está na fruta, e sim no contato do paladar com a fruta”(C.L.)
É sabido que não basta se desprender da razão e mergulhar em intuição, uma boa receita não depende do excesso, mas da harmonia da mistura de seus ingredientes. Um prato não pode ser considerado bom, apenas pelo sabor, mas textura, consistência, nuances entre as combinações de sal e açúcar, doce e azedo, temperatura e pela sua beleza...

A Seca


E quando fui ao seu encontro, não te alcancei. Acabou por não tomar conhecimento despropositadamente, como quem esbarra em qualquer coisa que não se enxerga.
Gritei, mas ninguém ouviu, quis as cores, mas tudo era cinza, o céu a terra e até os campos, a vida secou. Se trouxesse sua aquarela transformaria tudo em vida novamente, mas não consentiu. É necessário respirar, mas me falta ar, é preciso voltar, mas falta força, é mister lutar e estou sem pulso. A alma está morta, a vida se esvaeceu, já não vivo mais.

Subi num pé de frutas

Subi num pé de frutas, dessas que são doces e azedas, cravei os dentes em quantas pude, uma tinha sabor diferente da outra, uma era maior que outra, suculentas, extremamente doces, impossivelmente azedas! Seria possível separar cada mordida a parte que mais me apetece? E se possível fosse, existiria prazer nos sabores isolados?

Ao sétimo dia


Ao sétimo dia reservo as brincadeiras de ser, a libertação de todas futilidades do mundo. A este dia me junto as celebridades de espírito, a grande estrela, pé no chão em ritmo cardíaco. Tudo se transforma, com a mais sublime clareza visualizo o ambiente em micro detalhes, movimento, sintonia e formas, nada foge as lentes da percepção.

Os idealistas

Os idealistas são lenha para a fogueira do meu pensar. A todos aqueles que suscitam fidelidade na amizade ou no amor como forma de caráter justo, de necessidade pessoal, certamente já sofreu com a falta disso tudo ignorando a verdadeira natureza deste sentimento. O que é uma pessoa de caráter? Um Ser que jamais trocou seus princípios somente por obediência retilínea? Para ser o que os outros esperam que seja? Para viver sonhos alheios? De todas mesquinhas pretensões humanas, demandar fidelidade é provavelmente a maior, frequentemente confundida com virtude. Não se adquire fidelidade! “Pessoas que nos dão toda sua confiança acreditam, com isso, ter direito à nossa. É um erro de raciocínio; dádivas não conferem direitos.” vislumbrou Nietzsche.A fidelidade está longe de ser uma virtude ou direito como observa o mestre, é por definição uma vontade livre e superior que aprisiona o espírito sem se sentir encarcerado. É ignorar o resto do mundo navegando num fluxo contínuo, voltar os olhos para o cerne de sua inspiração num profundo envolvimento sem obrigação, é reduzir todas as bocas em uma, compactar o universo num único corpo tornando-se ele próprio, acordar e dormir sem esquecer, é nunca saciar a sede...Não se pode querer ser fiel, seria como querer ser inteligente, ou sentir frio no verão ou ter fome de barriga cheia por julgar necessário, moral, correto...Quantos erros não cometem, quantos atalhos construídos para o fim de tudo, quantas injustiças ainda serão necessárias para se corrigir a miopia de um(a) idealista?

Do alto do morro aspiro todas as alegrias do mundo


Do alto do morro aspiro todas as alegrias do mundo, daqui enxergo as coisas como são: pequenas e finitas, todas as distorções das confusões humanas, valores sem vida, vida sem valor! Os inflamados rebanhos pastam lá embaixo, continuo a assistir a pretensão dessa estupidez, eles olham para cima implorando perdão. O que seriam deles se soubessem da verdade? Que o centro da vida não está além da vida, que desperdiçam confissões aos pastores que se alimentam das ilusões deste rebanho...
O maior desafio do ser humano é o próprio ser, que vive para o conjunto, que se sacrifica para o coletivo, que vive a vida de aluguel que todas religiões lhes impõe.
Comer e beber de todas as refeições impostas até o fim, eis o destino destes seres obedientes, escravos da tirania cristã.

Janaína


Desci pelas encostas escarpadas do inconsciente e me atirei ao mar estrelado dos pensamentos onde o sol plunge sem tocá-los.
Tinha gente como a gente, caras conhecidas de peito amigo, só riso reconhecido.
Em ritmo alucinado o compasso é regido por semideuses em sucessivos ataques cardíacos, convido Janaína* para dançar.
A febre não cessa no embalo contínuo dessa onda que resvala os corais, e por isso é perfeita. Um passeio por esse mar momentaneamente abissal e cristalino. Desperto de um sonho, mas continuo a vivê-lo majestosamente em detalhes, com o sabor a escorrer aos lábios, inundando o consciente como coisa real, e a Janaína ainda dança...


* Dona Janaína é a rainha do mar.

Se eu fosse de teu agrado

E se eu fosse de teu agrado, não seria propositado, e se me chamasse de egoísta por não atender sua expectativa, diria que o meu bem estar não depende de agradar a sua volta, mas essencialmente meu eixo.

Subi as alturas frias


Subi as frias alturas, solitário, sei da verdade e divago sobre a humanidade. O que tem feito ela?
Eu que sou noturno com ramificações diurnas, que prefere a lua ao sol, que se esfola em paixões não concebidas, que se entrega ao prazer com o mais profundo querer e é arrastado pelo refluxo violento das ressacas, rendido em dor. Entregue por completo a experiência mais quente e dolorosa do ser, a viagem onipresente dos sentidos. A aldeia dos prazeres. Memória inapagável de lembrança eterna. Imortalização dos gestos, impulsos, almas, distúrbios de orgias sensoriais. Como se negar aos deleites do querer depois de tê-los nos lábios, mastigá-lo, sugado ao seu último sabor...?
Um ser de insustentável tristeza, invisível diante das irrealizações, que se isola para recompor, que tem o sofrimento por essência a sua natureza, reiniciando o fluxo e refluxo.

Uma lembrança de beira de rio em conversa com meus botões



Olho pra você e sorrio,
não sei se me compreende ou mesmo se te compreendo,
mas é coisa consabida.


Sei que a porção que compreendo agrada:

irresistivelmente doce,

sensivelmente feminina,

perfeitamente mulher,

ainda que - menina.




O resto é mistério a ser saboreado.
Uma lembrança de beira de rio em noite de verão,

murmurando ao mar histórias de um livro aberto.

Acorrentada a pequenas obsessões humanas,

perdida em pensamentos cegos dos sinais de saída,

dores a escorrer pelos olhos ganhando vida em ouvidos dispostos a ecoar algum conforto.

Que de vez em quando sorria,

como se estivesse a suavizar a seriedade dos sentimentos.

Menina mulher que sente e deseja, que se indigna e luta contra corrente,

que se desmancha em amor, que nele se perde,

se encontra e torna a se perder completamente.

Amor, oh L’amour!

Quanta coisa cruza a cabeça

nos fundamentos mais íntimos e plenos desta expressão!


E quanta coisa não se faria por amor?
Um prato cheio para corações inflamados,

que salta ao peito bombeando desejo dentro de desejos,

ideais latentes e febris, quem sabe se realizáveis,

que desesperadamente procuram calor,

que se exaltam em flores e sabores transbordando todos limites do ser...


E para você Que é linda: em traços e gestos,

que sofre demasiadamente a conseqüência de seus véus altruístas,

que se afoga em dor por ter “L’Amour” a flor da pele,

uma criança será concebida em forma de noite -



pra te confortar em estrelas,

que de cima hão de se atirar em série,

desesperadas,

riscando o escuro do céu,

só pra te ver sorrir...


Felizes os que experimentaram desse tempero,

a todos os outros só resta vontade.

E assim me sento

e observo o entardecer da janela de meu quarto,

um pôr do sol de cores acentuadas, típico dos dias de frio.

Levanto-me e aproximo da janela,

quanto mais aprecio suas luzes,

mais se esvai no horizonte distante,

como todas as coisas boas que escorrem pelas mãos.

O universo se reconstrói e as cortinas da noite caem sobre a cidade.

Com absoluta nitidez, recobro meus pensamentos,

percebo as coisas como são,

neste exato momento uma estrela corta o céu em busca do seu sorriso...

A espera do porvir

Eu gosto de café com pimenta, cheiro verde de canela e fruta cítrica de avelã. Madrugo na mangueira, pois o leite nao espera...Vejo o sol nascer deste lado, enquanto o mundo dorme d'outro. Acordo e tudo é real como a preguiça que sinto logo pela manhã, concebo o dia e todas suas expectativas num gole de café.Ando sem parar, chego sempre atrasado para alguma coisa, mas sempre chego! A nuvem de qualquer coisa me incomoda, então assopro para o alto todo tempo fechado, lavo as caras sujas, chuto as bundas que são moles, pinto o dia como numa tela e corro a esperar o porvir. De todas as vontades, somente uma é maior que a outra, só uma é melhor de todas, só uma vai vingar como numa corrida de espermatozóides em direção ao ninho da vida. Hoje estou lúcido e curado de todas as dúvidas, plácido e senhor de si. Revejo todos os valores que tiveram curso até aqui e separo o que me interessa, nada disso presta! Os homens criaram toda mediocridade e sentimento de culpa. Basta estar bem para que outrem nos dirija uma pitada de inveja em forma de pessimismo incurável, a distorção da verdadeira perspectiva que só pode ser enxergada entre pontos envolvidos, e não por expectadores ricos de misérias e pobres de espíritos! Hoje é dia de festa, mas nem todos estão convidados, como se sabe, as portas se abrem aos espirituosos, não para os que não conseguem enxergar diversão na alegria alheia. Fuja daqui, não saia numa saia de borracha e diga que é pneu, sua mascara só engana quem precisa ser enganado, não repita frases prontas seu pedante embotado! O pessimismo é resultado direto de sua miséria bestial, sua revolta contra o mundo...Enxergo nessas pessoas um crime contra a vida, uma limitação da limitação humana, um peso desnecessário ao mundo. Enquanto isso, sigo a aguardar o porvir sem preocupar com os ruídos, sem notar os alheios, sem me incomodar com as distorções dessa transição, olhando para dentro > buscando o mel...

Palavreando

Escrever é mais do que transcrever o que se percebe do mundo, diz mais exatamente como se relaciona com ele. O que importa não é a quantidade de detalhes reunidos num texto, mas essencialmente a seleção dos quais realmente exprimem a totalidade do que deseja transmitir.
Escrever é medir, ainda que sem precisão, a temperatura dos sentimentos, filtrar os sentidos e desenhá-los tais como são. Sobretudo, tornar elementos abstratos em realidade física e perene, característica intrínseca da linguagem escrita. Escrever é ainda, conversar com o mundo e consigo mesmo, dividir energia, viagem coletiva, uma senhora viagem...