segunda-feira, 4 de junho de 2007

A consciência


A consciência é a última fase da evolução do sistema orgânico, por conseqüência também é aquilo que há de menos acabado e de menos forte no sistema. É do consciente que provém uma multidão de enganos que fazem com que um animal, um homem, pareçam mais cedo do que seria necessário, “a despeito do destino”, como dizia Homero. Se o laço dos instintos, este laço conservador, não fosse de tal modo mais poderoso do que a consciência, se não desempenhasse, no conjunto, um papel regulador, a humanidade sucumbiria fatalmente sob o peso dos juízos absurdos, das suas divagações, da sua frivolidade, da sua credulidade, numa palavra do seu consciente: ou antes, há muito tempo que teria deixado de existir sem ele! Enquanto uma função não está madura, enquanto não atingiu o seu desenvolvimento perfeito, é perigosa para o organismo: é uma grande sorte que ela seja bem tiranizada! A consciência é-o severamente, e não é ao orgulho que o deve menos. Pensa-se que o orgulho forma o núcleo do ser humano; que é seu elemento duradouro, eterno, supremo, primordial! Considera-se que o consciente, é uma constante! Nega-se o seu crescimento, as suas intermitências! É considerado como “ a unidade do organismo”! Sobrestima-se, desconhece-se, ridiculamente, aquilo que teve consciência eminentemente útil de impedir o homem de realizar o seu desenvolvimento com demasiada rapidez. Julgando possuir consciência, os homens pouco se esforçaram por a adquirir; e ainda hoje estão nisso! Trata-se ainda de uma tarefa eminentemente atual, que o olho humano começa apenas a entrever, a de se incorporar o saber, de o tornar instintivo no homem; uma tarefa de que só se dão conta aqueles que não compreenderam que até aqui o homem só incorporou o erro, que toda nossa consciência se relaciona com ele.


Genialidade suprema de Friedrich Nietzsche - Gaia Ciência, 1882 > Milênios a frente da humanidade atual

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